20.2.06

Uma folha em branco

Uma folha em branco - o início de tudo. Uma caneta na mão e a incerteza do que quero transpirar para o papel. Rascunho umas palavras ao acaso, tento dar-lhe um fio condutor.

Amor. Solidão. Nuvem. Eléctrico. Nomes que ficam, outros tantos são riscados até não serem mais que meros rasgões na folha agora violada. Não sei porque escolhi estas e não outras palavras quaisquer. Um novo amor que se conhece numa viagem de eléctrico, num dia nublado. Falta a solidão. Talvez esse novo amor se sentisse só antes de "me" conhecer - talvez fosse "eu" o solitário. Não, eu não - estou farto de ser sempre o personagem central das minhas divagações ensonsas. E já agora, estou também farto de descrever todos (e eu também) como inevitavelmente solitários.

Uma jovem mulher num dia nublado - na rua, um solitário eléctrico espera por ela - na viagem, pensa, talvez encontre o amor. Uhmm, melhor; mas não o suficiente. Parece sempre que está algo a mais ou a menos. Talvez ela não devesse procurar o amor logo num qualquer eléctrico alfacinha (pois é, não defini onde se passa tudo - seja Lisboa); talvez devesse ir antes de metro, até porque um dia nublado avisa do perigo de chuva. Talvez mesmo a mulher não precisasse de ser jovem, nem sequer mesmo uma mulher. Amor, solidão, nuvem, eléctrico. E, no entanto, custa-me deixar ir qualquer uma delas, trocá-las por outras. Se calhar preciso é de as ajudar a servirem o seu propósito, a ganharem vida. Se calhar, preciso de lhes dar sentimento, de as mutar em coisa-viva.

Uma jovem mulher. Da janela, a noite nublada avisa o temporal do dia seguinte. Nunca percebeu bem porquê, mas os dias e noites de Inverno sempre lhe trouxeram uma sensação de vazio, de solidão. A televisão não dá nada que lhe prenda os sentidos. Veste o casaco e sai para a rua. As primeiras gotas de água que lhe beijam a face não a demovem de sentir o orvalho que faz brilhar as formas e as cores da cidade. Sorri. Ao longe, na curva, o primeiro eléctrico da manhã que nasce transporta vultos ainda adormecidos. Sorri. Um café de bairro que abre as suas portas. O primeiro café do dia nunca lhe soube tão bem. Sorri, e sente-se bem. Afinal, não será solidão que sente, mas sim necessidade de acreditar como a vida pode pulsar e vibrar, mesmo debaixo de nuvens que tentam barrar a luz. Como a vida se reproduz e transforma na sua cidade. Ri como há muito não ria, e diz: - Amo-te Lisboa...

Não está perfeito, mas na verdade até gosto [sorriso de anjo]. A folha de papel, outrora branca, ganhou agora cor, é estória. E escrevo, mesmo no fundinho da folha: FIM(?)

R.

1 comentário:

polegar disse...

:) a palavra tem poder. seduz. por isso também gosto de ver fazer amor com as palavras... será um voyeurismo saudável