22.1.08

A espera é o pior #1

A espera é o pior. Mesmo no meio de uma multidão, ficamos sós. Mas não é um “sozinho” daqueles bons, daquele sozinho que traz paz e quietude. Não, a espera traz um abandono. Traz uma ausência de sentidos. Apenas resta o nervoso miudinho – de quem espera. Por alguém. Por um impulso. Que até pode existir apenas em nós. Mas no qual depositamos todas as nossas esperanças. Pelo menos, por agora. A espera tira as forças. Não há discurso ensaiado que resista a uma espera prolongada. Demorada. Podemos até não esperar muito – para nós é um século. O quente fica frio. A ansiedade é já suor. A garganta seca de não ser usada. De estar à espera. De falar. De dizer as palavras (mal) planeadas. O corpo já hesita. As costas direitas curvam-se agora. O cabelo já não está na ordem delineada. Mas porque será que não sabemos esperar? Teremos sido ensinados a ser imediatos? A querer tudo agora, já? Será por isso que a espera se reveste de tanto incómodo, dor mesmo? A espera martiriza o corpo. E a alma? Ahh, a alma. Essa já não espera. A alma desespera. Enquanto que o corpo reage à ausência, mesmo que de forma não-desejada, a alma não sabe mudar os seus intentos. Se fixa a vontade, se prende os sentidos, então não existe cenário alternativo. Tudo. Ou nada. Abarcar o mundo num só abraço. Ou escolher o isolamento e o esquecimento. Não é possível a uma alma entender o significado da espera. Para ela a ausência é falha. A espera é o adiar permanente de um desejo por cumprir.

E, assim, só quando me vi ali, à tua espera, é que entendi o verdadeiro significado de esperar. A sério. Os minutos passavam ora lentos - quando contava os minutos até à hora combinada, ora de forma acelerada - quando, passada essa hora, comecei a (pre)sentir que poderias não vir. Até aquele momento, essa hipótese não colhia de mim qualquer apoio. Mas, naquele momento, naquela hora, naquele atraso, percebi que talvez não viesses. E à espera por ti juntou-se a ânsia de poderes não vir. Ou ainda pior, de te esqueceres. Sim, seria pior se te tivesses esquecido. Seria como a confissão da inimportância que eu teria na tua vida. Ao menos que te atrases, que inventes desculpas esfarrapadas para falhares à hora combinada. Antes isso. Mas, pelo menos, aparece.

E o tempo passa. Hesito, de repente. Estarei enganado no local do nosso encontro? Duvido da minha mente, questiono espaço e tempo. A espera por ti, que se havia transformado em ânsia apressada, é agora dúvida que não consigo solucionar. Sim, certamente o erro é meu. Tento recordar todos os locais que povoam as nossas almas. Procuro vislumbrar num deles a tua voz. Mas não, tudo me leva de volta àquela praia deserta. Tu não virás, penso eu. E assim, olho na direcção do mar. Talvez na esperança de que surjas em forma de sereia... ou de baleia. A espera deixa-me assim, irónico.

continua...

R.

2 comentários:

C. disse...

por vezes a espera é o melhor. é a altura em que alimentamos as ilusões e em que tudo pode acontecer. é o momento em que nos questionamos sobre o que será...mas em que não tememos o depois. quando a espera termina e os sonhos que criámos se destroem à frente dos nossos olhos só desejamos voltar ao momento em que ainda esperávamos. Se, por outro lado, quando chega o momento sentimos que valeu a pena...só nos resta a certeza de que a espera será o pior. pelo menos até à próxima vez ;)

p.s. contínua? estamos curiosos para saber!

angel_of _dust disse...

anjinha: espero que a espera, esta espera tenha valido a pena... para mim, mutou-se em viagem por terras de areia e sal, por caminhos de orvalho e luzes difusas. para mim, foi um retornar a ondas de inverno, a chamar pelo quente do verão. o frio que sempre pede o recato do lar, foi nesta espera companheiro.

a sim, tens razão. a espera foi e é o pior. mesmo quando o momento e torna mágico, fica a espera... a espera do próximo. e até lá a espera será sempre o pior :)