18.2.08

Como levar-te comigo?

Estou contigo à tanto tempo, e acho que nunca te conheci, disse ele. Porque me queres conhecer? Não te chega estar comigo?, disse ela. Porque sinto que é chegada a hora de partir... e se não te conhecer, como poderei levar-te comigo?, disse ele. Então não partas, peço-te - fica na ignorância junto de mim, disse ela.

Não podia ficar. Era tempo de abrir asas e voar em direcção a outras paragens. Aliás, já tinha ficado muito (demasiado?) tempo naquela cidade. Os seus gestos tinham-se tornado previsíveis, calculados e pensados em demasia. Mas, então, se realmente achava que era tempo de soltar amarras, porquê esta hesitação, este tremor de pernas que não o deixava simplesmente voar? Que espaço tinha esta silhueta feminina preenchido no seu coração de anjo e que agora teimava em ser obstáculo a novas aventuras? Como começar de novo, se algo estava por resolver? As resposta não surgiam - apenas criavam novas inquietações. Lamento, chegou a hora de partir, disse ele, cada momento a mais é uma chaga que me vai marcar - temo chegar ao ponto em que apenas me lembrarei de ti pela dor que este momento me causa. Queria guardar uma imagem dela, uma imagem perfeita e sem mácula. Uma imagem daqueles olhos profundos, das curvas sinuosas do corpo onde adorou perder-se vezes sem conta.

Tentou guardar essa imagem para si, fechando os olhos. Nessa imagem mental - seria afinal um sonho? - via um corpo alado; via as suas asas vermelhas bem abertas. E via um outro ser, de asas azuis, que sorria. Os seus corpos estavam ligados por uma película que mais ninguém podia ver. Não eram gémeos, pois a sua ligação nada tinha de umbilical. O véu que unia estes dois anjos era de uma seda transparente, e os seus corpos nús nada mais tinham a cobrir. Estavam em comunhão, em partilha. E assim ficaram por muito tempo, com um sorriso como único esboço de felicidade.

De volta ao chão, que é como quem diz de volta à realidade, ali permanecia aquela silhueta feminina aguardando uma resposta. Que ele não sabia dar. Tudo lhe dizia que não haveria razão alguma para partir. Tudo lhe dizia que o calor dos beijos, dos braços e dos corpos nús bastaria para acalmar a alma de viajante. E que, se calhar, seria tempo de dar descanso aos olhos, esgotados de sempre verem cores novas sem tempo para se deliciarem com as suas tonalidades. Mas mesmo assim, as asas abriam-se já apontando para o céu. E a hora do adeus estava próxima. Não haveriam palavras nem sorrisos suficientes para compensar a mágoa da partida. E por isso nada disse. Olhos nos olhos. Uma lágrima caiu da sua face. E a face feminina também chorou. Ambos percebiam que a despedida tinha chegado. Que queres então levar de mim?, perguntou ela. Diz-me o teu nome; quando te recordar, quero poder chamar por ti, disse ele. E ela, ainda com uma lágrima teimando em cair, sorriu. Terei o nome que quiseres, é indiferente; desde que te recordes com carinho de mim. Ele sorriu também. Como foi sorrindo ao longo dos meses e anos que passaram desde aquela despedida. Como sorri agora. Sempre. E em cada novo amor lembrou aquele anjo de formas curvas e voz doce. Em cada nome que conheceu, reviu aquelas asas azuis da côr do mar. É certo que nunca mais se cruzaram - mas nunca deixaram realmente de estar ao lado um do outro.

R.

3 comentários:

monikyta disse...

"no lado esquerdo do peito, bem juntinho ao coração, cm se guarda td o q se quer guardar p sempre"

(Milton Nascimento)

bj meu

C. disse...

felizmente há pessoas que mesmo quando partem não se vão embora.
essas guardamos em locais secretos, protegidos por uma chave que deitamos fora, para que nunca ninguém as possa roubar de dentro de nós *

Profanus disse...

» se a paixão te cega, não chores logo olha primeiro»
tradução livre de dois versos de Carmen Linares, canto-autora

si la pasión te ciega no llores luego
mira primero
cordialmente
jrm