12.5.08

Noite de maio - 2ª parte

A tristeza que povoa esta noite ainda não terminou. Apercebo-me que, agora, também os dias são mais longos. Custam mais a passar - ou melhor, agora custam a passar - antes não. E tudo porque habituei-me à tua presença. A sentir-te aqui. A saber quando chegavas. A olhar para o relógio e contar os minutos que faltavam. E à hora marcada chegavas. Agora há uma sensação estranha, que não consigo verbalizar. De não estares. De não vires. Nem à hora marcada - nem antes - nem depois. As horas vão passando sem o aparente sentido que criei em volta da tua presença. Não me consigo concentrar. Nem sequer escrever. E mesmo estas palavras que rabisco, primeiro num caderno preto, depois neste teclado velho, saem a custo. Por necessidade. De refilar contigo. Por aqui não estares.

Sim. Eu sei. Não tens culpa. Nem eu. Mas que queres? Fazes-me falta. O sorriso que me cativou e assumi como parte natural do meu dia já cá não está. Como se me tivesse sido emprestado - e agora quiseste-lo de volta. Apetece-me roubá-lo, dizer que o perdi. Só para poder ficar com ele. Decerto que não terás dificuldade em recriá-lo. Mas eu, se te devolver este sorriso tão precioso, ficarei lesado - magoado - ferido - abandonado. Meu deus... até lamechas estou a ficar. Não posso. Não quero. Tenho de perceber que o teu sorriso, aquele que me alimentou, não irá voltar. E que é melhor assim. Que o brilho que esse sorriso emanava estava a ofuscar as minhas asas vermelhas. Que me estava a esquecer de ser anjo - fingia agora ser apenas um homem. E isso não pode ser... não é?

R.

1 comentário:

c. disse...

Quando nos deixamos ir e perdemos o medo de voar, de viver as ilusões, habituamo-nos à sensação de paz que se apodera de nós, tudo à nossa volta a ganhar um contorno especial, uma vida nova, com um sentido que só nós percebemos...e se, por algum motivo, deixamos de conseguir ver as cores que pintámos, e cada tom nos parece mais esbatido, sentimos o chão fugir debaixo dos nossos pés e parece que a rede que nos impedia de cair já não existe. mas às vezes ela continua lá, embora nem sempre se veja ***