12.8.08

O regresso

Tramore (Irlanda) - Agosto 2008


É sempre duro regressar a casa depois de uma viagem. É sempre um desafio olhar o mar revolto e conseguir não mergulhar bem fundo. É sempre difícil aceitar que cada viagem não seja o recomeço que tanto desejamos. Que tudo o que ficou de menos bom para trás não terá desaparecido enquanto estivemos ausentes. E que agora, no regresso, as nuvens cinzentas e pesadas (que noutras paragens sempre assumimos como de um cinza melodioso) ainda cá estão - puxando-nos novamente para a reprodução dos dias coçados pelo uso. A fuga ensaiada afinal foi sem destino, e a volta é por isso bem mais dura. Teremos de reaprender as regras que ingloriamente conseguíramos esquecer. As caras maçadoras daqueles que nos pedem contas não se diluíram com a água dos mares de verão. E os seus sorrisos são agora ainda mais amarelos e desprovidos de brilho. O que têm para nos dizer - para repetir - não traz novidades e já cansa. Mas compreendemos no regresso que voltaremos a ter de fingir interesse por banalidades rotineiras e vidinhas desinteressantes.

Dublin (Irlanda) - Agosto 2008

As pontes que tentámos construir na direcção de novos rumos a desbravar acabaram por nos trazer à casa de partida, sem receber qualquer prémio. E o rio que resplandecia à luz do final de tarde carrega agora cores baças. Restam-nos as fotografias. Aquelas que guardamos na nossa memória. Que gravamos a fogo para que não se dispersem. E as estórias. As verdadeiras e as inventadas. Confundidas entre si. E os sabores. E os odores. As bolhas nos pés. E a garganta arranhada. Sim, apenas o corpo - o nosso corpo - mantém viva a chama da aventura. Da eterna vontade de partir... talvez, um dia, para uma viagem sem regresso marcado. Até lá, vamos fazendo de nós, oferecendo sorrisos em vez de ares sisudos, respirando fundo mesmo no meio das multidões, inventando ilusões fugazes no meio da noite. Até lá, até à proxima aventura, vamos contando os minutos e os segundos, pesquisando lugares longínquos ou próximos onde, uma vez mais, nos possamos perder. O que será sempre o objectivo último.

R.

p.s. a quem parte agora... que nos possamos encontrar a meio do caminho...



5 comentários:

c. disse...

...em cada regresso procuramos as pontes que contruimos, na busca do rumo que devemos seguir. Nem sempre as encontramos mas se nos lançarmos ao caminho encontraremos sempre novas pistas para chegar onde desejamos!

p.s.: gostei das tuas imagens e fique curiosa pelas outras que trazes escondidas :$

monikyta disse...

será q um dia vamos querer continuar a partir, mas querer ainda mais regressar?

bj meu

angel_of _dust disse...

c: sim... novas pontes para novos caminhos - novos mapas para novas aventuras - novas companhias para novas sensações.

angel_of _dust disse...

monikyta: sim, talvez no dia em que conseguirmos ter no regresso todo o calor que buscámos na partida....

Anónimo disse...

cada viagem serve para nos encontrar-mos e sobretudo nos encontrar-mos com os outros, a vida é uma troca e não podemos receber sem dar.jj