10.12.09

A ilusão e as ilusões

para quem arrisca mergulhar na névoa da noite

Existe a Ilusão. A arte ou inevitabilidade de nem tudo ser o que parece. Ou melhor, de raramente as coisas serem o que parecem. À primeira vista. Ou mesmo depois de muito tempo. A arte de tudo se transformar em algo mais, para além do que é palpável. Mesmo que esse mais seja por vezes menos do que esperávamos. Mesmo que esse mais seja o anúncio do final de algo. E a inevitabilidade de nunca podermos tomar seja o que fôr por garantido. Do descanso do que alcançamos ser, precisamente, efémero. A ilusão é a face e o verso de tudo. E, acima de tudo, é a etérea capacidade humana de transformar em emocional aquilo que deveria ser natural, físico - concreto. Em recusar os instintos (quase) animais através da racionalização de tudo o que nos rodeia. Fechando a alma às portas ainda por abrir - que nos levariam a novos mundos. E às janelas que ficarão fechadas - perdendo para sempre paisagens exóticas.

Existe a ilusão - e existem as ilusões. Menos definitivas. Menos fracturantes. As ilusões são alimento diário de pequenas vontades. De pequenos-grandes desejos. De pequenos artifícios e pequenas constatações. As ilusões que vamos criando e moldando à nossa vontade. Ou as ilusões que queremos deixar voar. Pequenas ilhas onde perdemos o corpo e o nome. Onde somos outros. Pausas na vida-de-todos-os-dias. Fugas a esse cliché que inventamos para transformar todos os dias em algo que não seja ilusão. Inventamos as (pequenas) ilusões para respirar da grande fuga à ilusão. E nestes contrasensos que definem o ser humano, nestas pequenas-grandes ilusões, depositamos toda a força da emoção. Todas as lágrimas e sorrisos. Todos os orgasmos e cicatrizes. Não aqueles que repetimos racionalmente na vida-de-todos-os-dias - mas sim os verdadeiros. Aqueles que nunca ousámos mostrar. Porque fica mal. Porque ainda não temos idade. Porque já não temos idade. Porque não faz parte da educação que nos deram. Porque... porque não encaixa no cartão do cidadão que copiámos de quem veio antes de nós. E porque já não se usa o bilhete de identidade. Porque somos cidadãos - que vivem em sociedade. E não podemos (queremos?) ser indivíduos - é cansativo ter identidade.

Procuramos essas ilusões - mas não sabemos onde. Temos vontade - mas não temos a força para arriscar conseguir. Somos voyeurs. Queremos saber que é possível fugir à rotina e normalidade. Mesmo que, na maior parte das vezes, nunca tenhamos a coragem de dar o passo em frente. De arriscar sermos mais. Mesmo que esse mais acabe por ser menos. Nunca teremos a ousadia de corrermos em direcção à névoa com que sonhamos. De mergulhar no desconhecido. A luz do sol é mais reconfortante - mesmo que torne baças todas as cores.

E depois existem aqueles que arriscam. Que sabem que as pequenas ilusões nunca serão verdadeiramente pequenas-grandes ilusões se não forem testadas, mordidas, lambidas e cheiradas. Que a névoa refresca o corpo - e a alma. Que temos cinco sentidos a satisfazer. Saborear mais - tocar mais intensamente - cheirar todos os perfumes e odores - descobrir as novas cores que se escondem para lá do arco-íris - ouvir as palavras mais doces e todas as melodias sussurradas. E ainda um sexto sentido, talvez mesmo o mais importante de todos - a imaginação. Existem aqueles que sabem que podemos libertar todas as fantasias. As mais secretas - que nunca ousámos partilhar com ninguém. E que, de repente, descobrimos quem as satisfaça. Podemos ser nós - mas um outro nós. Mais liberto. Mais receptivo aos estímulos e sensações. Existem aqueles que sabem que novos universos esperam por quem estiver disposto a largar amarras. E que, mesmo sabendo difícil a ousadia da partida, só o prazer da viagem valerá a pena. Nem que seja por horas, minutos - instantes - vale sempre a pena viver uma ilusão. Sentir o coração a palpitar. Um frémito incontrolável a tomar conta do corpo. A hesitação perante o desconhecido. Uma tensão quase sexual. Acima de tudo, a consciência do risco que é preciso correr para se ser feliz. Nem que seja por esses breves momentos. Nem que amanhã, ou quando fôr, quando a névoa se dissipar, voltemos à vida-de-todos-os-dias.

Mesmo imersos novamente nas rotinas da cidade que nunca dorme, as marcas desses momentos de extâse não se perdem. Ficarão os sorrisos inquietos. As cicatrizes do risco. Os calores dos orgasmos. As asas dos vôos a universos agora descobertos. Ficará a vontade de novas ilusões. E, acima de tudo, iremos descobrir que não somos o que parecemos. À primeira vista. Ou mesmo depois de muito tempo. E que temos a arte de nos transformar-mos em algo mais - para além do que é visível e palpável. E que não é garantido que amanhã seremos iguais ao que somos hoje. E que devemos aceitar a inevitabilidade de querermos sempre mais - e diferente. Finalmente perceberemos que nós somos a grande Ilusão. Basta, no momento exacto, abrir as asas e deixar que o vento nos (e)leve.

R.

6 comentários:

Patty disse...

Não podia estar mais de acordo! Belo texto, cheio de sentido e significado.

Paty

angel_of _dust disse...

patty: olá, de novo... andas desaparecida. ainda bem que gostaste - e ainda melhor que voltaste(?).

até já.

Patrícia disse...

Nao tenho tido tempo para nada. Mas estou quaseeeee de férias :)

Até já,
bj

Sensi disse...

Já li e reli vezes sem fim este teu texto.

Mexe e remexe com os sentidos. ~
De tão intenso e sentido que está.

Ao fim de tantas leituras,
Hoje deixo-te esta mensagem
de Parabéns pelo excelente
Escrito,
Junto com o desejo de que tenhas
Um excelente 2010.

BJ
Sensi

angel_of _dust disse...

sensi: obrigado pelo cumprimento (que já chega atrasado, mas obrigações terrenas impediram-me de escrever mais cedo). espero que voltes aqui à minha ilha de ilusões... e se os teus sentidos reagiram ao que escrevi, fica sabendo que é na estrita medida do que os meus sentiram ao sangrar estas palavras para o "papel". até já...

Maria Guedes disse...

Devo ter vindo aqui parar.... porque acredito nas ilusões... e revejo-me em tudo o que escreveu.
Parabens pelo texto... um convite a uma aprendizagem do descobrimento.