11.5.10

Convite na segunda pessoa

Convida-me a entrar. A conhecer onde vives. De onde me respondes há já tanto tempo - quanto tempo passou... não sei. Mostra-me um outro lado de ti. O lado maternal. O do ninho. Onde vais recolhendo e seleccionando as memórias que existiam antes. Antes dos nossos caminhos se terem cruzado pela primeira vez. E pelas vezes que se seguiram. O lado da mulher que esconde uma caixinha debaixo da cama. E que guarda ainda o diário da infância. E que por vezes deseja ainda nele escrever. Embora já não consiga imprimir nas palavras a inocência de outrora. Os verbos e substantivos são agora mais duros. Mais sensíveis. Mais carnais. Seguramente um outro diário deveria ser aberto para albergar todas as imagens do presente. Por isso, mostra-me os diários. O antigo - para saber quem foste e o que te trouxe aqui. E o de agora - para poder satisfazer os teus pedidos. Não te inibas. Mostra-me todos os recantos. De onde estás - e de ti. Quero tocar à porta - que tu abres num ápice. Porque há muito que me esperavas. Mesmo antes de me saberes a caminho.

Convida-me a saber mais de ti. A saber-te. A decorar todos os teus nomes. Os verdadeiros e os inventados. Especialmente os inventados. por serem mais condizentes contigo. E deixa-me que crie um nome para ti que só eu saberei - só eu poderei usar. Um nome que te torna apenas minha. Um nome de anjo para um corpo de mulher. Um palavra-passe para um mundo de descoberta. De cada etapa de ti. De cada atalho e vereda. De cada segredo e (re)descoberta. Podes também chamar-me como quiseres. Sempre respondi aos teus apelos e desejos. E assim quero continuar - cada vez mais. Convida-me a ser teu. A saberes-me. Quero ser um livro aberto para ti. Um corpo desnudado sem nada a esconder. Onde poderás desenhar as novas naturezas e todos os surrealismos que povoam as fantasias que alimentas.

Convida-me a construir verbos e sujeitos e predicados. Frases e parágrafos intermináveis. Para te oferecer em sacrifício. Como dádiva - oferta - por estares aqui. Palavras forjadas de sangue e suor. Pede-me que te regue os olhos com fotografias de mundos só nossos. Ordena-me que te enxugue o peito com o bater do meu coração. E que te pinte os lábios com as cores das minhas viagens. Quer ser biógrafo das aventuras que teremos juntos. Relatos que serão apenas nossos. Espero um convite. Não precisa de ser formal. Basta um leve piscar de olhos. Ou uma mão estendida. Quero estar perto de ti. E assim, fica o convite feito da minha parte. Basta aceitares.

R.

3 comentários:

... a cada instante ... disse...

Pergunto-me se haveria no mundo coraem para recusar este convite...

Gostei particularmente de "Especialmente os inventados. por serem mais condizentes contigo."

Abraço.

angel_of _dust disse...

amiga, há sempre coragem para recusar convites... como poderá faltar(-me) sempre a coragem de o fazer no momento certo à pessoa certa.

obrigada por estares (por) aqui :)

Anónimo disse...

É fácil aceitar o teu convite? Não sei, mas algo em mim e em ti me convenceu a, pelo menos, tentar...

Rita Ferreira