22.1.14

A verdade é que... [versão curta]

para ti. para que as palavras que não se podem (ainda) dizer não fermentem e desapareçam.

A verdade é que... é mais fácil sentir e guardar - cá dentro. Saber que se deseja algo. Ter alguém. Ir para algum lugar. Partir e recomeçar - ou aguentar e tentar. Sim, é mais fácil sentir... que fazer. Arriscar mesmo, deixar que os nossos ensejos ganhem forma e corpo. Sejam mais que palavras bonitas ou iradas. É mais fácil ficar pela ilusão. Porque avançar e insistir nela é ter de suportar todo o seu peso.

A verdade é que... o tempo que fomos marcando para saber se o caminho percorrido é certo acabou por nos trair. Todas as horas, minutos e momentos que assumimos como etapas para avançar - ou abandonar - foram sendo trocados por emergências, por fugas ou interrupções. Os momentos em que o prazer e o sorriso nos encheram o espírito têm sido demasiado fugazes. E os tropeções e mágoas parecem-nos eternos.

A verdade é que... temos andado às cabeçadas. Um com o outro. E cada no seu pequeno lugar de isolamento - onde nos refugiamos quenado percebemos, repetidamente, que isto custa. Temos andado em luta com a vida que nos rodeia - porque nos sabe bem estar nesta bolha. Temos andado em luta entre nós - porque as incertezas são muitas, as falhas no discurso e na acção imensas... e mesmo a paixão deixa marcas que nos esbofeteiam, lembrando que estamos a arriscar um jogo que dominamos mal.

A verdade é que... as noites boas transformam-se, por vezes, em dias maus. Em manhãs cinzentas, porque as certezas foram-se. Os riscos da ilusão ser apenas(?) mesmo ilusão acendem-se. E a surge incerteza de que nos estaremos a enganar. O sorriso que tomámos como certo parece que perde a força quando atirado à poeira dos nossos dias - os dias em que não estamos juntos. Numa dança bipolar, atraímo-nos e afastamo-nos repetidamente - duvidando se dançamos ou lutamos.

A verdade é que... não procurámos isto. Sejo lá o que for. É certo que não fugimos a sete-pés, não quebrámos todas as pontes que encurtavam o caminho. Mas fomos descobrindo uma jornada que nos parecia segura. Que nos saciava a vontade de saber mais sobre esta inusitada descoberta. Mas que, ao mesmo tempo, defendia um último reduto. Palavras ao invés de toques. E assim fomos ficando. Enquanto as desculpas foram fáceis de inventar. Até esgotarmos as palavras. E, mesmo assim, ainda estarmos um defronte do outro. A querer mais.

A verdade é que... as palavras acabaram, definitivamente. Tudo o que se disser já não serve. Porque as  bocas estão secas de tanto falar - e de tudo o que gostariam nunca calar. E o corpo... bem, o corpo gosta menos de regras e de imposições. Sabe exprimir-se sem correntes, mesmo que não queiramos. Sabe dar-se em paixão - sabe encolher-se a um canto em sinal de desistência. E, assim, enquanto as palavras poderam transvestir-se em lirismos e poesias, o corpo prendeu-nos ao verdadeiro. A última fronteira foi ultrapassada. E não mais será possível voltar atrás.

A [grande] verdade é que... decidi que um novo caminho teria de ser desbravado. E imaginei vontades. E etapas e tempos a cumprir. Com menos palavras - mais decisões. Para que tudo fosse sonhado, pesado, aceite e arriscado. Mas tenho sido traído. Por uma auto-inépcia que me custa aceitar - lido mal com o (meu) cansaço falta de vontade. Mas também porque cada passo na direcção de um qualquer caminho tem trazido cicatrizes duras de aceitar. Como se a vontade de ser diferente - não melhor, mas diferente - estivesse a ser testada. Só que escasseiam-me as forças. Quis fugir de me sentir mal - e parece que as sombras estão sempre na próxima esquina.

[Mas] a [maior] verdade é que... custa muito estar aqui. Dentro do que sinto - do que quero. E não tenho. E saber que nem sempre as palavras bonitas levam a ilusões emocionantes - e que nem sempre as ilusões têm força suficiente para se aguentarem ao vento e frio que sentimos "cá fora". E, na verdade, hoje sinto-me gelado. Porque custa ainda mais sofrer por dois... mas aqui, sozinho.

R.

p.s. desculpa.

1 comentário:

c. disse...

talvez o mais difícil seja tomar consciência. reconhecer as verdades. aquele momento em que fechamos os olhos e conseguimos ver o vazio. aquilo que em nós não existe. então esquecemos as desculpas esfarrapadas e abrimos a porta da alma. procuramos aí o que as mãos não sentem. os sorrisos que guardámos para dias piores. e as fotografias que deixámos por revelar. aquelas que insistimos em guardar na caixinha dos segredos. e lá descobrimos rios de palavras. todas aquelas que ficaram por dizer. infinitos momentos que ficaram pendentes. à espera do tal momento em que se poderiam partilhar. e aí descobrimos que a felicidade está à distância da nossa vontade. que temos a chave para aceder ao que mais desejamos. tudo o que guardamos cá dentro está mesmo ali. à nossa espera. mas para isso é preciso apenas um primeiro passo. como é que se escolhe o melhor momento para (re)começar? como sabemos que chegou a altura de arriscar? qual será o sinal que esperamos para avançar? não serão esses sinais apenas desculpas para nos escondermos na nossa bolha? haverá melhor dica para avançar que a nossa vontade?