4.8.16

Revisão. ou como as chaves poderão já não estar no jarro.

Sobre os caminhos que nunca são direitos. Ou directos. Sobre as jornadas que se começam - e se interrompem. Mesmo quando sabemos, ou adivinhamos, que existe um horizonte certo. Directo. Que nos parece direito. É realmente uma fraqueza ter muito para fazer, mas também pouco concretizar. Querer tanto, e rapidamente (?) aceitar o pouco. Não por falta de vontade. Isso não - essa nunca faltou. E houve mesmo alturas em que essa vontade dominou, impeliu e iluminou o caminho. Momentos em que a ilha esteve habitada e soube (tão) bem. Mas foi um mapa que se empoeirou. Uma rota que - nunca sendo esquecida - pareceu tão boa que logo a razão, a frustração e o cansaço trataram de a remeter para o campo do "não é - nunca será - totalmente real". Mas era - tenho a certeza agora. E a oportunidade terá passado. A ocasião de agarrar esse caminho com o corpo e a ilusão e segui-lo até ao horizonte, e mais além. Será pior não ter agarrado até ao fim o caminho - ou não ter a certeza porque tal aconteceu? Ou melhor, sei-o tão bem. Porque sempre fui mais hábil inventar que a conseguir. Porque ilhas, caminhos, ilusões e asas de anjo sempre foram criações literárias. Fabulações de um espírito em ebulição. Palavras, frases e invenções sem corpo definido - sem pele e carne e sabor e sorriso para prender. Até... até serem bem mais que isso. Até tudo o que era inventado ser verdadeiro. Mesmo verdadeiro. Porque, de repente, a praia existia: tinha uma estação que me levava até lá, uma estrada à beira-mar onde todas as conversas tinham sentido, um banco onde os pés desapareciam na neblina, De repente, havia uma voz, um sabor e um cheiro do outro lado - um outro-lado encostado a mim, seja em corpo seja em partilha. Havia muito. Que, para um espírito revolto, parece muito... talvez demasiado. Como agarrar o nervoso de todas as ilusões trem possíveis - quase fáceis? Como desenhar a ponte que liga essa noite-que-envolve aos dias-pendulares. Como trocar letras-iniciais por nomes completos? Como não ser tanto anjo e ser mais homem?

Não sabia ainda. E demorou tempo para que aprendesse. Talvez a distância que de repente se impôs - que eu inventei? - me tenha permitido descobrir como as noites-que-sabem-bem poderiam ter dado dias-que-amanhecem-melhor. Mas as oportunidades são isso mesmo... oportunidades. Jogadas de risco que apenas gratificam os bons jogadores. E isso nunca fui. Arrisquei sempre (quase) tudo em bluffs, sem nunca ligar às matemáticas e probabilidades. Ganhei muito - mas tenho perdido tanto. E as noites em que finalmente descobri que a ilha é verdade e que existem anjos de asas azuis à espera de serem descobertos, acabaram por servir também para deitar sal nas feridas que estavam encobertas. É bem mais complicado o ofício de anjo quando se descobre que existem outras almas a voar por aí. Custa bem mais falar sozinho quando sabemos que há quem tenha voz parecida - mas que, por alguma razão, parecemos ainda não saber como dialogar. Não... sabemos sei a razão: incapacidade de aceitar o risco totalmente. Mesmo que sempre o tenha escrito, o este anjo não sabia ainda abraçar o mar como se fosse parte dele. E houve um dia que o corpo e alma tiveram frio (nem que fosse por momentos), e a praia começou a ficar distante - como se um interregno fosse o passo correcto. Não era - de todo.

O regresso foi demorado. Mas soube bem. Mesmo que se tenha perdido a conta às noites em que a ilha ficou encoberta no oceano, ela permaneceu à espera de novamente a lua a trazer até à costa. E assim aconteceu. A neblina levantou, da mesma forma como um dia se tinha instalado, e houve um novo mapa a desenhar-se. Talvez cedo demais, com ânsia demasiada, com pouco tino e demasiada incerteza. Fruto certamente da tentativa de agarrar este sonho que estava preso no coração e teimava em fazê-lo doer, pela ausência. E essa falta de tino não deu segurança ao reencontro. Mais uma vez fui pouco capaz. E fico irritado com tanta vontade e tão pouca capacidade. Por deixar que as noites passem, os dias corram, e que as palavras re-comecem a escassear - deixando que a ilusão se retenha dentro de um corpo ainda em processo de regeneração. Mas continuo sem entender. Como tudo o que me incendiou por-dentro não foi capaz de me aguentar para-fora. Antes. E sim, o voltar agora poderá ter sido tardio. Ainda existe uma linha invisível a unir quem já voou tanto e por lugares tão bonitos. MAs as palavras são diferentes, e as asas não saberão (?) competir com aviões que dão bem maior conforto. E (se calhar) é assim que deve ser. As palavras já não serão apenas palavras - as ilusões existem e alimentam ainda - mas talvez devam voltar a investir a sua força em páginas em branco. Mas onde passará a sentir-se um cheiro, um sabor - e um leve tremer de lábios que faz tudo parar e apenas... apenas TUDO acontece.

Com passar dos dias, horas e semanas, anos, algumas certezas são agora directas. Por viajarem direitas à minha emoção. Isto tu é és muito importante. E nas ausências suspeito percebo cada vez mais isso. Sem explicação não consigo explicar. Só suspeitar aceitar. Obrigado.

R.

2 comentários:

c. disse...

ou das portas-que-nunca-precisaram-de-chave que conduzem a divisões empoeiradas, a pedir que as habitem e renovem com cores de Primavera. como quem espera pela promessa de novos sorrisos. ou apenas por uma ilusão que lhe preencha os dias **

angel_of _dust disse...

sim, basta voltar a descobrir como bater a essas portas - mesmo sem saber o que estará lá do outro lado. e saber que isso é - sem foi - muito bom... alimentar da ilusão e do risco. saber fechar os olhos e (simplesmente?) bater à porta.