19.8.05

A ritinha... ou como me lembro dela

Hoje, nem sei bem porquê, lembrei-me da Rita (da Ritinha, como lhe chamava...). A Rita era minha colega de escola, da altura em que ainda tentava fingir que gostava da cilindrada dos carros. Agora já me assumi totalmente: gosto de dança e teatro, não tenho a mínima paciência para a AutoMotor e usar fato-de-treino sem ser para praticar algum desporto (e mesmo aí...).

Mas voltando à Rita. Ela vivia muito perto dos meus avós, e fazia anos exactamente no mesmo dia que eu - era um ano mais velha. Já não me lembro o momento exacto em que a conheci, a minha memória tem-na como dado adquirido por mais que tente ir mais longe. Sei que foi no 5º ano (ou 1º ano do 2º ciclo do Ensino Básico, como se diz agora LOL). A Ritinha era alta, bem mais alta que eu. Tinha uns olhos grandes, umas faces sempre muito rosadas, e nas minhas memórias raramente a (re)vejo sem um gigantesco sorriso de orelha a orelha. E tinha um cabelo castanho e "à tigela" que brilhava como se de um espelho se tratasse. Durante muito tempo, achava que seria o mais perto de ter uma gémea :)

Tinha 10 anos. Sendo a casa dos meu avós "pouso central" da escolaridade desde a Escola Primária até ao 8º ano, e dada esta proximidade com a casa da Rita, acho que a também proximidade que se criou entre nós deverá ter advindo de sermos vizinhos. Eramos parceiros de caminho de ida e vinda da escola, e rapidamente nos tornámos parceiros em quase tudo o resto: intervalos, piadas e desatenções nas aulas, partidas a colegas... Até hoje, quando se fala de amigos a imagem da Rita é uma das imagens que mais facilmente me vem à cabeça. Acho até que a Ritinha é das grandes "culpadas" por desde há muito achar que as conversas homem-mulher (neste caso, miúdo-miúda) são bem mais interessantes que entre o próprio género. E nem teria a ver com a Rita ser maria-rapaz - não se preocupava muito com roupas e usava sempre calças, é verdade; mas não dispensava a reprovação intensa ao comportamento da maior parte dos rapazes, típica das raparigas da sua idade, e era tão sensível quanto qualquer outra colega de turma. Naquela idade, ter-se alguém para partilhar todos os segredos, participar em todas as brincadeiras, mas que ao mesmo tempo corasse quando se oferecia uma flor roubada do canteiro da escola, era o melhor que se poderia imaginar de amizade - agora, certamente ousaria chamar-lhe outra coisa. Naquela altura, tragava o almoço às pressas, porque desejava ir tocar-lhe à porta; mesmo que ela, depois, me fizesse esperar enquanto colocava os cadernos, livros e estojo na mochila. Talvez, suspeito, o fizesse com propositada vagarosidade para se fazer 'esperada'. Talvez na altura não o percebesse, mas quando se tem 10, 11 anos aceitamos que o mundo é cheio de mistérios, e que não faz mal não percebermos muita coisa - dedicamos as nossas energias ao momento presente.

Conheci a Ritinha 3 anos. Durante esse tempo acho hoje que vivi a minha primeira verdadeira paixão. Mas não o soube... ou então, na minha mente de pré-adolescente "categorizei" a Ritinha no grupo dos tão necessários amigos próximos. Só passado algum tempo, quando comecei a (des)entender algumas coisas do Amor, juntei as diversas memórias em que figura essa recordação tão querida, e vi que o sentimento seria diferente. Também entendi que a Rita me enviou por diversas vezes, talvez não nos primeiros tempos de convívio/amizade, mas depois, sinais que ela também via, para nós, algo mais que a amizade. Tenho até uma memória bem viva de um dia (não sei de que mês, e muito menos de que ano) em que a Rita transformou o seu enorme sorriso de alegria num bem mais trémulo de nervosismo. Queria falar de um assunto importante e fazer uma pergunta, afastando-me da restante pandilha. Quem sabe se no seu crescimento bem mais rápido para mulher que eu para pequeno adolescente, ela percebeu antes o que sentia (sentíamos) um pelo outro. Nunca o disse; não sei se desistiu à última, ou se eu terei inconscientemente arranjada uma forma de gorar a situação. É curioso... embora não saiba quando isto se passou, a minha mente "catalogou" esta memória como o definitivo adeus entre nós. Tudo o resto parece esfumar-se. Lembro-me de mudarmos de escola. A Rita foi para outra diferente. Lembro-me de um dia (meses talvez) reparar na porta do prédio aberta. Na porta da casa aberta. Na casa vazia. Não me lembro de ver a Rita partir. Estou quase certo que não a vi partir. Lembro-me de fechar este capítulo da minha vida. Lembro-me de namoradas (conscientemente assumidas). Mais tarde, lembro-me de reabrir definitivamente este capítulo.

Todos tomamos como certo que a amizade não tem idade - a cooperação, a fidelidade, a interdependência são ensinadas às crianças como bens essenciais. Com a Rita aprendi, se bem que muitos anos mais tarde, que também o amor verdadeiro não escolhe altura para aparecer.

Hoje, nem sei bem porquê, lembrei-me da Rita (da Ritinha, como lhe chamava...). Por mais incrível que possa parecer, agora sinto saudades tuas...

R.


P.S. para ti, onde quer que estejas

5 comentários:

polegar disse...

"conheço" uma rita menina-mulher, que vivo todos os dias. num palco, sim. mas vivo-a e sinto-a.
gostava que a conhecesses. acredita que não é publicidade à peça. não temos dinheiro, precisamos dos bilhetes comprados, mas com prazer te ofereceria um convite. só para a conheceres.
não sei se será parecida com a tua Ritinha. mas esta também é Ritinha para todos nos ensaios.

os amores de infância têm de puros e verdadeiros tal força, que procuramos a vida toda por algo assim. apesar de todas as formatações e dores que nos vão toldando a inocência, amar com tudo o que temos é com o amor crédulo e brilhante de criança. esses amores vivem conosco e em nós...
beijinho

angel_of _dust disse...

com todo o prazer estarei a ver a "tua" Rita. com todo o prazer pagarei o bilhete para ver a minha colega de palcos (não os mesmos, é certo - mas isso n interessa); sei a necessidade de rendermos a arte ao vil metal (nem que seja apenas um poukito).

quanto aos amores de infância/juventude, talvez a lembrança da Ritinha não seja apenas a imagem daquela figura amorosa que passou pela minha vida; talvez seja, pelo menos p mim, a imagem de que o avançar da idade implica muito mais que apenas maior noção - implica tb mais constrangimenos, regras - menos espontaneidade, inocência (parece contradição, n é?) e aventura.

se calhar, para além de sentir falta da Ritinha... também sinto falta de uma parte de mim ke deixei com ela. nunca me tinha apercebido disso...

polegar disse...

é essa a parte de nós que procuramos constantemente... todos os dias depois de perdermos as "nossas" Ritinhas e quejandos...

angel_of _dust disse...

mas que buscaremos? é demasiado simples um "mero" saudosismo... talvez procuremos a inocência, a mente directa e simples que nos guiava.

talvez procuremos uma idade em que podiamos perguntar à vontade. agora, tudo e todos nos pedem respostas, mesmo sem saberem se nos interessam as perguntas.

TUBARÃO!!! disse...

Cada vez gosto mais das pessoas