O jogo da glória é um jogo de convívio. No princípio do jogo não existe nada. Só o tabuleiro. Ainda não há vencedores nem vencidos. Ainda. No início de tudo o tabuleiro está vazio. No jogo avançamos e recuamos ao sabor dos dados e da sorte. Há jogadores que ganham e perdem o direito de jogar. O jogo da glória é um tabuleiro de números e cores. E onde, no final, há um prémio para quem lá chegue primeiro.
Mas o jogo da glória é também a vida. O jogo de memórias. O jogo representa o percurso da vida de um ser humano, onde a virtude e o vício se interpõem em nosso caminho sem que necessariamente os desejemos. Um tabuleiro vazio. As casas são criadas à medida que se joga. Não sabemos quais têm prémios. Mas todas têm memórias. Boas ou más. São escadas e cobras, oportunidades e fracassos. Ganhar ou perder é o importante, mesmo que não queiramos. Há que jogar. Aliás, não podemos deixar de jogar. Nunca se perde a vez. E, no fim, não há prémio para o primeiro, nem castigo para o último. No jogo da glória-memória o lançar dos dados é que é importante. O jogo da glória somos nós - jogadores em busca de uma vitória: o acreditar que todo o jogo valeu a pena.
Início do jogo. Casa 0. Chega-te a mim, mais perto da lareira - vou-te contar a história verdadeira. Na frente, um tabuleiro vazio. Não vemos a totalidade das casas. Nem sabemos quantas são. Como começar? Primeira regra: todos os jogadores começam ao mesmo tempo. Jogamos os dados. E esperamos a ver o que acontece.
Há que reconhecer que estamos um tudo-nada diferentes... diz um dos jogadores. Casa 5. Agora o jogo é a sério, e não a feijões. Os peões de jogo não se distinguem pelas cores. Os peões têm memórias e expectativas, têm enseios e receios. Os peões, espelhos ou cópias de nós, são iguais por fora mas bem diferentes por dentro. Hesitamos em jogar os dados. Não sabemos qual casa preferimos. Nova regra: devem-se jogar os dados e dizer bem alto o resultado - mas, mesmo assim, temos sempre de ocupar a casa seguinte, e só essa.
Casa 10. A obsessão com o passado é uma armadilha. Estamos encantados, fascinados e depois... depois não suportamos o confronto com o mundo real... o jogo está mais renhido. Alguns jogadores ganharam distância - julgam ter uma vantagem considerável. Outros conformam-se com o fim do pelotão. Mas há ainda muito jogo pela frente. E neste jogo da glória a sorte pode mudar quase de forma instantânea.
Estamos na Casa 14. É fácil ser-se um revolucionário quando a família paga as despesas. Não é permitido apoios de fora. No jogo estamos sempre sozinhos. Mesmo que outros jogadores estejam na mesma casa. Dados iguais. Resultados (às vezes) iguais. Memórias sempre diferentes. Falar do jogo é simples. Jogá-lo de forma satisfatória é quase impossível.
As pessoas geralmente pensam que as guerras são feitas por homens. Não é verdade. Quem anda na guerra são os gaiatos... Casa 22. Às vezes, durante o jogo, pode apetecer desistir. Já não querermos jogar. Procuramos a saída de emergência. Nova regra: não há saídas a meio do jogo. Se aceitamos jogar, nunca podemos desistir. Se não aceitamos, temos de jogar na mesma. A opção é ilusória.
Casa 30. Queria era ser um camponês. Disparate. Os camponeses têm chatices todos os dias e nunca lhes dá para quererem ser intelectuais... acho eu... Não existem pré-requisitos para jogar. A experiência do jogo é pessoal, logo não existem tácticas que se apliquem. Logo não existe conhecimento que permita avançar ou regredir. O conhecimento é empírico - o jogo aprende-se jogando. Só o corpo ou o que resta dele é necessário. E mesmo isso...
Por vezes as noites duram meses. E por vezes os meses oceanos. E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos. E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos. E por vezes fingimos que lembramos. Fim de jogo. Ou julgamos ser o final do jogo. Mas logo uma nova casa aparece. Alguns dos jogadores, entretanto, desapareceram. Afinal sempre é possível perder (ou será que apenas esses alcançam prémio?). E a nova casa permanece. Espera ser ocupada. Soa bem... jogamos outra vez?
R.