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31 de janeiro de 2010

Posso entrar?

Perguntas-me porque apareci - porque decidi prender a minha atenção em ti e no que fazes. Porque nos prendemos a alguém? Nos interessamos por uma pessoa? Não há tempo adequado quando se tenta dizer tudo - mesmo quando não temos respostas. Quando não sabemos o que nos prendeu e fez voltar onde fomos ou queremos ser felizes. Talvez tenha sido um sorriso (eu gosto muito de sorrisos) ou um olhar envergonhado. E não sabendo explicar, podia inventar uma estória... ou simplesmente dizer-te que te visitei uma vez, e que depois, uma e outra vez, voltei a ti porque sim. Mas prefiro tentar da forma que melhor sei. Desta forma. Usando palavras desenhadas à luz da noite que se vai transformando em madrugada. E, com isto, dizer "olá". Esperando que esta seja a desculpa perfeita para me veres aqui - ao pé de ti.

Perdoa a intromissão. Não ter batido antes à porta. E pedido licença para te visitar. Não vou dizer que foi sem querer. Porque na realidade admito e defendo estar a olhar para ti - às escondidas (?). Mas não quero que penses que sou obsessivo. Que te ando a perseguir. Porque não ando - juro. Mas a verdade é que também não te consigo explicar convincentemente porque tenho gostado de te visitar. Aí onde "moras". Onde vais permitindo que, mesmo sem saberes, eu vá inventando uma personagem que me faz companhia. E que, por gostar, vou voltando de tempos a tempos. Para te criar como parceira de viagem. Para saber como estás. Que tens feito. E mesmo que a imagem que tenha criado de ti possa não condizer em nada com quem és, isso não importa. Porque mais do que forçar a minha presença nas tuas rotinas, quero que povoes as minhas aventuras. Aquelas que vou criando - umas vezes por diversão, muitas outras por necessidade de me sentir vivo. Prometo-te que, em troca da tua inconsciente participação, reservarei para ti sempre o papel principal. Nessas aventuras assumirás sempre a liderança de todas as decisões. E terás sempre a palavra certa no momento certo. Tudo isto te ofereço. Como paga por me permitires - espero - ser teu fiel companheiro de aventuras. Para além de escriba dos teus-nossos feitos. E com a pena e a palavra vou estendendo a minha linha até ti. Para que a possas colorir. Da cor e textura que te apetecer. E para que possas, se quiseres, inventar novas estórias e inúmeras aventuras onde me levarás pela mão. Se quiseres.

Por isso, se calhar não deveria pedir-te desculpa. Por me ter intrometido no teu espaço. Por ter saltado a vedação e escondido nos arbustos. Teremos nós - terás tu - direito em questionar quem se apropria do que enviamos para o ar? Continuaremos donos e senhores das imagens, dos sons e das letras que vamos deixando escapar entre fotografias e textos? Haverá direito em julgar quem apanha do chão e das nuvens os despojos da nossa passagem? Não estarão elas a perpetuar a nossa presença?... Assim sendo, vê em mim não uma estranha figura, mas sim um anjo de asas abertas. Sentado no cimo de um prédio na cidade que nunca dorme, fui descobrindo nas sombrias ruelas uma pérola a brilhar. Reparando no seu brilho... seria uma pena não vê-lo perdurar. E daí o eterno retorno a ti - ao teu lugar. Daí a invasão tranquila e a agora rendição incondicional. Porque tu, sem o saberes, a isso me obrigaste. Porque decidiste aparecer e chamar-me. E eu respondi ao teu apelo. Não o poderia - quereria - evitar. Nem os anjos são de ferro.

R.


26 de janeiro de 2006

Amanhã saberei

Amanhã, não será apenas mais um dia. Amanhã, sem marés a interpor-se, estaremos frente-a-frente… estaremos à distância de um abraço ou de um beijo, ou apenas de um cumprimento seco. Que esperar? Poderá a excitação de um primeiro encontro superar toda a cumplicidade criada em tantos outros tidos com o monitor como vela?

Não sei que te direi, que ainda te não tenha dito. Espero não afundar o meu navio, logo agora que o julgava em rota acertada. Se te pareci confiante nas nossas viagens conjuntas, desengana-te!: acabo de esquecer tudo, como um menino-cábula que por não estudar suficiente, tem uma "branca" na hora do exame. Temo que esta nova imagem que terás (verás) de mim não corresponda à que tu já conheces… mas crê que é somente por inabilidade minha, e que quero ser tudo o que imaginaste.

Como seremos daqui para a frente? A nossa viagem tomará nova rota, bem sei – teremos novas cartas de marear, quem sabe mesmo novos barcos. Espero é que não esqueças o mar que nos uniu: é para esse que quero sempre retornar. É nele que consigo espelhar o meu – o nosso – reflexo. Tem sido esse reflexo que me acompanha as noites há… há quanto tempo mesmo? Já não sei. Todo o tempo desapareceu, porque há muito que o deixei de contar… Mas esta nova contagem que me trará?

Amanhã saberei… à hora marcada – no local marcado…
E, no entanto, sinto como se apenas fosse reencontrar alguém que por demais conheço, e com quem partilho inúmeras estórias. Se assim for, tudo será mais fácil. Se não, talvez ganhes (ganhemos) vontade de nos (re)conhecer novamente... quem sabe?

Amanhã finalmente saberei…

R.

(Ainda) espero por ti

Hoje sento-me em frente ao monitor, e espero por ti. Mas tu não vieste, nem na hora marcada nem muito tempo depois… Estranhamente, isso faz-me mal: senti a tua falta.


Conhecer-te… não será apenas dar sangue, imagem, cor ao que a imaginação já houvera "criado" em mim? Quando esbarramos com alguém neste mar de zeros e uns transformados em anseios, em sonhos ou apenas em fugas ao tédio, que esperamos? Quem esperamos?


No momento em que, pela primeira vez, os olhos se cruzam através de um teclado estamos de longe de saber – ou de querer saber – se do outro lado um espelho reflecte as nossas vontades… as nossas necessidades. Por vezes, procuramos um antídoto para uma insónia que teima em persistir… por vezes, um silêncio que não desaparece… ou uma solidão demasiado ruidosa.


De um simples olá surge então algo que muitos crêem ser fictício, até estranho – enganador. A nossa mente pode até concordar, querer até concordar. Mas poderá a (falsa?) razão sobrepor-se a uma (mais que verdadeira) emoção, sensação, coração? Será este mar de bits tão diferente de um café, de um teatro, de um bar, restaurante, praia ou escola? Conhecer uma outra pessoa através de um modem é tão diferente de conhecê-la por carta, ou mesmo apresentada por um qualquer amigo? Será que os olhos são mesmo o espelho da alma… ou o importante serão os olhos da alma?


Numa conversa fugaz, os minutos e as horas passam. Uma noite "gasta" falando de tudo e nada. No final, a promessa de um novo encontro, a promessa de uma nova amizade a manter… que, provavelmente, amanhã estará já esquecida. Mas quando não se esquece? Porquê esperar por mais viagens em mar tão nublado, em que o fundo não passa de uma miragem?


E porquê o desânimo de te poder perder… se, ao certo, nem sei se alguma vez te ganhei? A verdade é que sempre fui bem melhor a criar perguntas do que a inventar-lhes as respostas. Por isso, não arranjo nem explicação nem contentamento para o que a tua falta me faz…


Envolto num mar de ideias revoltas,


R.



P.S. para outro anjo caído - pela noite dentro, a "furar" vidas

25 de agosto de 2005

A resposta demorada

Agora é a minha vez de pedir desculpa pela demora na resposta... infelizmente, e como tu bem disseste, nem sempre podemos viver nos sonhos e ilusões (muitas vezes, obrigações e rotinas bem mais "reais" puxam-nos sem vontade).

Li e reli a tua carta, e não descobri que te ocupa o tempo... terei eu falhado em ler nas entrelinhas? ou terás tu querido manter em segredo? a ver vamos. Quanto ao teu desânimo em relação ao que te rodeia, também eu passo muitas vezes por essa sensação: construímos castelos que nos parecem bem verdadeiros e exequíveis, e por vezes eles vêm com "falhas na construção" (naturais da sua idade... ou infligidas por alguém?). Se calhar o meu aparente vigor e optimismo deve-se a não ter ainda enfrentado todos os obstáculos; tu pareces ter já deparado com alguns – os suficientes para deixares de acreditar na tua missão? Espero bem que assim não seja!

Quando, na minha última missiva, falei em te "criar" não pretendi de forma alguma iniciar uma qualquer construção de personagem alheia, sem pedir autorização. Quero sim, ao invés, que tu me contes a tua representação... Quero criar-te enquanto minha interlocutora (e vice-versa), criar-te como pessoa com que falo, com quem penso, com quem sonho ilusões (in)atingíveis, e discuto realidades bem mais palpáveis.

Mas ainda bem que deixaste que, pelo menos, o meu barco pudesse largar amarras, para te conhecer melhor... tentarei não "afundar" nesta minha jornada, nem violar qualquer regra náutica que tu me apresentes – tentarei ser o melhor dos marujos (sim, porque para capitão falta-me ainda muito).

Do convés do navio que veleja agora em águas serenas,

R.

18 de agosto de 2005

Não poderemos nomear

Pedes-me para te dar respostas... para desvendar esse íman que me levou na tua direcção, esse condão que me iluminou uma destas noites. Sinceramente, não sei responder... que será que nos leva a "chocar" com alguém? Não poderemos nomear de palavras o puro pensamento que se ilumina, quando navegando no mar de bits e bytes, o nosso olhar se prende numa mensagem deixada ao acaso(?) num écran?

Ao invés, talvez te possa desvendar um pouco sobre mim, sobre o que faço quando não me refugio na lua, na praia, na chávena de café e no livro já gasto de tanto ler.
Ensinaram-me a olhar para as pessoas, a vê-las na sua labuta diária, nas suas escolhas... nas suas obrigações. Esperam agora que faça isso, que descubra quais as razões que nos motivam a viver uns com os outros, o porquê de seguirmos por aqui, em vez de irmos por ali, ou por ainda mais além... Espero consegui-lo fazer, mas tenho receio (ou será preguiça) de falhar. Tenho de receio de não saber como procurar, ou de saber como procurar, mas não mo deixarem fazer.

Outras vezes, exponho-me perante os outros... mostro algo que, não sendo meu, tem tudo de mim... dizem-me o que fazer, o que mostrar – mas uma parte de mim é dada aos outros – é dada com os outros. E embora me exponha, gosto. Por vezes, sinto mesmo necessidade – já não me imagino sem isso.
E assim passo os meus dias: vendo e fazendo – analisando e agindo... Sempre à espera que alguém se sente à minha mesa do café, e partilhe comigo o seu livro. Que alguém esteja disposto a ver o sol nascer e morrer, sem precisar de uma razão para tal. E assim passarei os dias, as horas, os minutos – o lento centrifugar dos segundos.

E tu? por onde andas... o que fazes? que te levou a esbarrar comigo nestas noites de silêncios e murmúrios? O que vês à tua frente, quando bebes a última gota do sangue da cidade, quando as suas veias se abrem para ti como portões de um qualquer palácio? A minha curiosidade também é grande. O meu caderno de memórias precisa de te imaginar, de te "criar"...

Faz um mapa do tesouro... o meu barco já levantou âncora.

R.

11 de agosto de 2005

Ouvi-te chamar...

Ouvi-te chamar... desculpa, estava distraído. Não fui logo... Mas agora que descobri que estavas à minha espera (mas seria a mim que chamavas?), não poderia deixar de responder.

Falas que me chamavas porque procuras um interlocutor que ajude a passar a noite. Não te faltam amigos – mas queres uma conversa “diferente”, solta de tudo o que te rodeia. Compreendo-te. Tal como tu, também eu conversei com muitas pessoas, aprendi os nomes dos lugares, para onde correm os rios, com quantos prédios se faz uma cidade.
Tomei cafés acompanhado somente de um livro, e li apenas na presença de uma chávena e um pires. Estive na praia, e senti a diferença entre o molhado e o seco, entre o frio e o calor. Saltei ondas, e revolvi areias. Vi o nascer do sol. Assisti ao seu adormecer.

Talvez nos tenhamos cruzado alguma vez, não sei. Talvez tenhas sido aquela que me prendeu o olhar. Talvez tenhas passado despercebida. Nem sempre estive atento. Nem sempre estou atento.
No entanto, gostei de te ter "conhecido". Repeti as tuas palavras, em demorado murmúrio. Esbocei um sorriso. Gostei do que me disseste.

Diz-me onde é a tua porta, e a tua praia. Não saberei chegar lá sozinho. Até já...

R.


Navegando num mar de bits e bites, encontramos/esbarramos com muita gente. Nem todas nos “tocam” da mesma forma… nem todas nos prendem a atenção. Um dia, uma semana, um mês… uma pessoa dirige missivas a alguém que conheceu num mundo de teclas e monitores. Não sabemos o que essa pessoa respondeu… nem sabemos, sequer, se respondeu. Mas, se calhar, quem escreve procura também um reflexo de si – se calhar, vê na resposta do outro o que deseja ver…

Que resposta terá? Terá resposta?