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28 de janeiro de 2009

Os maus alunos

Estes (maus?) alunos têm sinais no queixo, na barriga... ou mesmo secretos. Têm sardas ou cicatrizes. Vestem-se de forma extravagante. E sorriem. Ou enfurecem-se.

Estes (bons?) alunos podem ser teimosos. Ou revoltados. Como os relógios, nunca param - mesmo sem pilha. Mas às vezes vão enchendo até rebentar. Como os balões. Procuram no espelho uma resposta às suas inquietações. Mandam mensagens de telemóvel. E habituam-se a não ver caras - mas será que vêem corações? Grafitam paredes, deixam a sua marca para a posteridade. Já não anseiam um futuro brilhante - apenas um presente marcante. E tomam opções. Todos os dias. Acender ou não o fósforo. Sentir o calor da chama. Ou ficar ao relento. Coleccionam conchas, breves recordações de ilhas onde nunca foram. E onde nem sequer esperam ir. Preferem-nas imaginadas. Ouvem música. Têm playstations. Inventam um mundo sem barreiras - sem amarras. Mas sem porto seguro onde repousar. Aventuram-se numa noite que não conhecem. Mas não levam lanterna - preferem viajar leves.

Estes alunos, bons ou maus, querem ultrapassar as grades que se lhes deparam. As grades da escola, onde não querem estar. As grades das cidades, que lhes fecham as saídas. As grades da sua própria vida, que querem vencer. Mas não lhes apetece subir. Tentam sempre, sempre, saltar num só impulso. Inevitavelmente, muitos caiem. E assim é feita a selecção (natural?). Novas grades. Novos alunos. Sempre a tentar chegar lá a cima. Mesmo sem saber o que do outro lado os espera.

coro dos maus alunos. estreia 16 abril

R.

28 de novembro de 2008

Que depois do dia vem a noite


vocês escolhem-nos as roupas.
cantam para nós.
observam-nos enquanto dormimos.
dizem-nos que a terra é redonda
contam-nos histórias.
guardam as fotos de quando éramos pequenos.
observam-nos enquanto filmam com a câmara de vídeo, e se alguma coisa corre mal dizem "vá, continua" ou dizem "faz de novo e desta vez não olhes para a câmara".


that night follows day. culturgest. 27.11.08
(foi bonito. obrigado.)


R.

P.S. o espectáculo repete hoje (28) e amanhã (29), às 21h30

13 de fevereiro de 2008

As fotos que o fogo (me) tem deixado...

E é assim - num ápice - que o trabalho de meses (às vezes anos) transpira para um qualquer palco. É assim, num repentismo que simultaneamente excita mas aterroriza. Quando damos muito de nós a algo, como se de uma pessoa se tratasse, temos sempre receio que não seja suficiente. Que nós não sejamos suficientes. Tudo isto a propósito da estreia da minha última incursão a um palco. Das minhas fotos do fogo. E confesso aqui (onde ninguém me pode ouvir) que dei muito a este trabalho. Mesmo que a maioria das dádivas estejam escondidas, transvestidas de marcações, guarda-roupa, textos e luzes. Mas sim, o anjo está lá presente em imensos momentos - talvez até demais...

Na terra árida que criámos - eu e quem aceitou o desafio de me acompanhar - e onde tentámos perder memórias das personagens (nossas?), apareceu também um deserto emocional. Criado num palco. Para que possamos fingir que não é real. Que é só inventado para divertir alguém, a nós próprios. E por lá têm passado histórias, casos, desabafos. Por lá têm vivido a Noémia e a Mariana, amigas desencontradas. E o Octávio, com os seus soldadinhos de brincar - os únicos que não o abandonam e que não cobram o seu falhanço. Naquela terra vive um soldado que tenta fechar um ciclo - amparado nos braços de uma sombra. E, escondida na penumbra, há uma irmã que já foi noiva - e que agora revive cartas por entregar. Acima de tudo, nesta terra árida está um jogo; um jogo de uma identidade colectiva. De uma fotografia de grupo. Que somos nós se assim quisermos. Ou de outros, se tivermos a força para fazer melhor. Mas que, ao fim e ao cabo, não passa de uma fotografia - para dela fazermos o que acharmos melhor...

Naquela terra árida vivo eu. Na voz de cada actor. No seu corpo hesitante por vezes, convicto por momentos. Nos seus olhos e boca e sexo. Nas suas mágoas roubadas a personagens saídas de um papel. E nas alegrias vividas a custo. Vivo na luz negra que reflecte o branco que pontua a todos. Vivo na penumbra que cobre muito do palco. Nas malas que carregam vidas no seu interior. Acima de tudo, vivo nas fotografias que invadem o palco. Memórias recentes de um país com longa história. Vivo nas críticas de quem não gostou, de quem detestou - de quem frontalmente me disse que deveríamos desistir. Vivo nos elogios, alguns exagerados e meramente por amizade. Vivo imenso em quem me questiona as razões, as opções... as convicções - sim, tenho tendência para ter convicções e defendê-las aguerridamente.

Mas principalmente, vivo e defendo e subscrevo-vos a vocês: Daniela, Luis, Margarida, Mónica, Pedro, Sandra e Vanda. As vossas virtudes roubo para mim. Os vossos defeitos são desde a estreia os meus defeitos. E sempre que vos vejo em palco, (re)vejo-me a mim. Nos pequenos pormenores das minhas asas que fui espalhando pela terra árida. E que nunca desvendarei. Isso guardo para mim. O resto é vosso.

R.

p.s. e sim... este post também é um pouco publicitário - admito que sou um anjo mercantilista (às vezes...)

29 de janeiro de 2008

(publicidade) FOTOS DO FOGO - estreia 07.fev

O anjo admite. Às vezes, se não formos nós próprios a "puxar a brasa à nossa sardinha", ninguém o fará. Mil perdões - segue-se momento publicitário:



Fotos do fogo
29ª produção do teatro passagem de nível


de 07 a 16 fevereiro, qui a sáb, 22h00
no auditório de alfornelos




«E por vezes as noites duram meses. E por vezes os meses oceanos. E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos. E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos. E por vezes fingimos que lembramos.»


Memórias. Acima de tudo, este espectáculo é sobre memórias. E de sonhos que se esfumaram no tempo; de ideais que tinham tanta força, mas que agora parecem apenas ter significado como história que se repete em tertúlias saudosistas. O falar de um passado recente, das vitórias da esperança, que agora se assumem como meias-vitórias do comodismo. Tanto foi reivindicado para, agora, nos bastar tão pouco. Perdemos a inocência em terras distantes, e vendemo-la aqui tão perto.


Este espectáculo é sobre a Noémia e a Mariana, amigas reencontradas numa qualquer planície alentejana. Sobre as ideologias que as uniam - e que agora criam um fosso entre elas. É sobre o Octávio e o seu pequeno mundo. Sobre soldadinhos de brincar, que por mais que se guardem nunca deixarão de lá estar. É sobre uma irmã que já foi noiva, e uma noiva que nunca o deixará de ser. Sobre o fosso que se cava entre os que partem (para sempre) e os que ficam. É sobre um jovem soldado que já não o é. Nem soldado e muito menos jovem. Apenas memória. E é sobretudo sobre um jogo. Sobre fotografias e palavras, imagens e lembranças. É sobre uma terra árida onde se enterram recordações, na esperança de as perder. Mas é impossível. Este espectáculo é sobre 1960, o Ultramar, o amor e a dor, o comodismo e a ilusão. Este espectáculo é sobre o nosso país e uma identidade colectiva. Seja o que isso for...



FOTOS DO FOGO
Teatro Passagem de Nível
07 a 16 de Fevereiro
Quintas, Sextas e Sábados 22h00
Auditório de Alfornelos

Espectáculo para M/12 anos

Preço: 5,00 euros
(desc. maiores de 65 anos, sócios tpn, profissionais do teatro e grupos +10: 2,50 euros)

Informações e reservas: 965 445 495 \ geral@tpn.pt

Dramaturgia e Encenação: Ricardo Mendes

A partir de "O Sentido da Epopeia" de Mário de Carvalho e textos de Al Berto, Carlos Alberto Machado, David Mourão Ferreira, João Gil e Manuel Alegre

Elenco: Daniela Oliveira, Luis Mendes, Margarida Diogo, Mónica Lourenço, Pedro Candeias, Sandra Santos e Vanda Candeias
Assistência de Encenação: Isabel Torres
Espaço Cénico: Ricardo Mendes
Execução Cenográfica: Rui Ferreira
Desenho de Luz: Ricardo Mendes
Guarda-Roupa e Adereços: TPN
Materiais de Divulgação: Luc@s
Operação Técnica: TPN

Produção: Luis Mendes Rui Ferreira




Auditório de Alfornelos
Pç. José Afonso, 15 E, C. C. Colina do Sol / 2700-495 Amadora
[5 mins. Metro Alfornelos (linha azul)]

Tel: (+351) 214 763 633 / 965 445 495
Fax: (+351) 214 765 661

geral@tpn.pt
http://www.tpn.pt
http://fotosdofogo.tpn.pt