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17 de novembro de 2009

Momentos

Momentos. Pequenos recortes de vida. Fracções de memórias. Ou de expectativas. Fotografias a sépia ou a cores. De viagens. De princípios de algo. De finais de tudo. Momentos. Calafrios. Sorrisos. Lágrimas. Orgasmos. Mágoas. Euforias. Momentos... de nós.

R.

28 de junho de 2007

Quando foi?

(resposta ao post lembras-te de mim?)

Sabes... é que um dia tudo o que parecia essencial se tornou supérfluo. Não podíamos viver sem exigir - mas, agora, sabe melhor esperar que aconteça... um dia. Os ideais de liberdade e revolução deram lugar à noção tão cómoda de «já fiz a minha parte». O fulgor desapareceu. A alma esfriou. A vontade esmoreceu.

Onde nos teremos perdido? Terá sido quando, pela primeira vez, quisemos um carro melhor? Subitamente, o prazer de vaguear pelas ruas deu lugar a uma vontade de chegar rapidamente a todo o lado. Será que desistimos quando aquele que não pedia nada conseguiu tudo? Teremos desistido por inveja? Por cobiça? Ou teremos optado por catalogar todas essas ideias como ímpetos de juventude? Agora, numa idade adulta, obrigamo-nos a achar que depois de lutar devemos reproduzir - não sexo (ao menos fosse isso...), mas sim a ordem e a calma que nos pedem para que tudo funcione "como deve ser".

Sabes... infelizmente, acho que desistimos por comodismo. Puro e simples comodismo. Porque agora o sentido de missão ou o sentimento de pertença daria demasiado trabalho a manter. Porque agora, por mais estranho que possa parecer, já ninguém reconheceria o esforço. Já não seríamos aqueles que traduzem o sentir de muitos - mas será que alguma vez foram assim tantos a sentir?... Será que alguma vez a vontade de mudança prevaleceu sobre a vontade de pacatez? Ou então, se calhar nunca acreditámos realmente que um mundo melhor era (é) possível. Se calhar reivindicar, exigir, proclamar, foram apenas uma forma de dizer ao mundo "estamos vivos". E, se calhar, isso foi suficiente... Mesmo que quase tudo o resto se tenha perdido.

R.

20 de janeiro de 2007

Lembras-te de mim?

Lembras-te de mim? Daqueles dias que passávamos juntos - imaginando mudar o mundo de uma só penada. Lembras-te de mim? Eu era aquele rapaz que ficava sempre no fundo da sala, a mochila cheia daqueles jornais revolucionários, e com os panfletos já prontos a distribuir.

Lembras-te de nós? Lembras-te de como me disseste que enfrentarias os teus pais, que não irias seguir aquele curso de medicina, e que sim, que me acompanharias na luta política? Talvez não te lembres já, mas desconfiei da tua adesão à causa, dos teus motivos. Tudo bem que me agradava ter alguém como tu interessada em alguém como eu. Tudo bem que nem todos teríamos o mesmo empenho, e que quantos mais fossemos mais nos levariam a sério. Tudo bem que também eu nem sempre percebia as palavras de ordem que berrava com a intensidade que só se tem com dezoito anos. Lembras-te do que me disseste no dia em que finalmente a liberdade chegou? No dia em que descobrimos que nada realmente nos unia só um ao outro - a não ser um vago sentido de pertença a um qualquer grupo coloridamente conotado (vermelhos, naquela altura éramos todos vermelhos).

Lembras-te?! Tens a certeza? Então porque te comportas agora, trinta-e-tal anos passados, como se tivéssemos sido meros companheiros de escola? Porque fazes um sorriso amarelo quando falo daqueles tempos e da tua saia ao xadrez, moda importada dos ventos de 68? Porque escondes, debaixo dessa bata branca, um ar de quem não reconhece a sua própria história. Espera - não reconhece ou não aceita?

Três décadas passaram, e a liberdade que quisémos não passa agora de um chorrilho de frases feitas - de uma enciclopédia do mundo fantástico que ninguém acredita (realmente) ter acontecido. É certo que naquela data tão coloridamente marcada no calendário (se bem que, agora, o vermelho esbateu-se e outras tonalidades lhe tomaram o lugar) ainda todos pomos a flôr na lapela e sacudimos o pó às palavras de ordem. É certo que ainda sabemos apontar as responsabilidades aos nossos filhos com um:«havias de ver como se piava mais fino na minha juventude», «tudo o que tens foi conquistado com o suor, sangue e lágrimas de muitos». É certo que guardas como um prémio que ninguém valida a tua sindicância passada. Mas, no dia-a-dia, nas horas rotineiras e pendulares, cristalizaste outros valores agora bem mais queridos - o conforto de um bom sofá e a crítica política mas pouco implicada, acompanhada da respectiva ausência nas urnas. A liberdade foi conquistada, mas fizeste questão em trocá-la por um carro e uma casa a prestações.

Desculpa, acho que afinal eu é que já não me lembro de ti...

R.

26 de outubro de 2006

A menina ao colo

Uma das primeiras verdades que se descobre (ou inventa?) quando nos assumimos como anjos, sejam eles caídos como eu ou ainda em plena força como nenhum que eu conheça, é que estamos condenados à solidão. Não significa isso que passemos o resto da eternidade em total isolamento, nada disso. Nunca poderemos ser anjos por completo se não andarmos imersos nas multidões, disfarçados por entre os demais, despercebidos nas rotinas e nas lengalengas que são os dias das cidades que nunca dormem. Mas um verdadeiro anjo, por mais acompanhado que ande, tem sempre o seu centro em si, na sua existência única e irrepetível. Podemos amar, odiar, até reproduzir, mas um anjo nunca conseguirá dar a entender aos outros toda a sua essência, todas as suas facetas. E se é essa a sua grande característica definidora, é também a sua pesada herança e tormenta.

Mas por estes dias, semanas ou meses ou anos - perdi há já muito a noção do passar do tempo - os meus vôos nocturnos esbarraram com um outro anjo, feminino por sinal. Após os primeiros momentos de habitual sedução, ainda na ignorância de estar perante uma parceira de sina, comecei a perceber nesse ser algo a mais. Vislumbrei nela todos os sinais evidentes de estar frente-a-frente com alguém que descobria e conhecia todas as minhas angústias e memórias, todas aquelas histórias que eu próprio tinha aprendido no dia em que as minhas asas na altura brancas como a cal tinham crescido, e eu tinha percebido que não mais poderia fugir do destino marcado. Mas que tinha este anjo de formas esbeltas e voz ondulante como os mares calmos diferente de todos os outros que tinha já encontrado e perdido na poeira dos dias? E porque eram suas asas de um azul brilhante? Este anjo empunhava uma calma que me perturbava, pois nunca nenhum de nós tinha conseguido controlar assim os seus sentidos e desejos. Decidi dedicar o meu tempo a este anjo, ganhar-lhe a confiança, roubar-lhe o segredo.

Passaram agora anos, meses ou apenas dias, e descobri que a razão daquela inusitada calma deve-se a um facto surpreendente: aquele anjo de formas onduladas tem uma filha. Se na natureza de qualquer animal a reprodução é algo de soberbo, quanto mais nos anjos. A descendência permite perceber apenas as qualidades que os anjos detêm, pois as falhas, as incertezas, estão ainda escondidas no tenro corpo. Um anjo em pequeno é um anjo em perfeição. E aquela anjo-menina ao colo daquela anjo-mulher são o retrato de algo que apenas nos sonhos acredito: alcançar a paz de espírito - amar outro ser como parte da nossa própria alma.

És agora o meu retrato de cobiça. Tu, anjo renascido, mulher de formas perfeitas e alma completa. Admito-te pelo que és - mas invejo-te pelo que alcançaste. Resta-me permanecer a teu lado, esperando que me chames e acompanhando-te nas viagens para as quais me convidares. Somos poucos e muitos de nós estão prestes a desistir - eu próprio fraquejo muitas vezes por dia. Por isso, eu estarei aqui. E desejo que o teu anjo-criança saiba crescer à imagem de quem a criou. Se assim for, há certamente esperança na nossa espécie.

R.

27 de abril de 2006

A cidade das 32 ruas

Hoje voltei a ti, minha cidade imaginada. Senti-te novamente a pulsar dentro de mim, como se a utopia tivesse recuperado o fôlego há muito perdido.

Tenho de admitir que a força desta cidade desejada por um anjo confuso estava a enfraquecer a cada dia. A jovialidade com que imaginava que os sonhos são possíveis, que a força de um poderá mutar-se na força de todos - essa inocência de espírito estava a diluir-se nas multidões pendulares e nos dias cinzentos e sempre iguais. Diziam-me que afinal não deviamos querer mudar o mundo, mas sim adaptarmo-nos a ele. Se primeiro estranhei... depois entranhei e começava a aceitar. Pouco a pouco, essa cidade de cores vivas e vibrantes, esse tempo de mudança e construção, desvaneciam-se. Agora via uma cidade sempre igual, hoje como ontem... hoje como amanhã. Fotocópias de fraca qualidade, repetidas vezes sem conta - as letras desaparecendo, cada vez mais perto de apenas folhas brancas. Era assim que me começava a sentir: uma folha branca, mas já amarrotada de um repetido uso.

Mas hoje, a cidade imaginada regressou. Não por festejos bacocos e vazios de sentido. Não por bandeiras ao vento, em que os símbolos estão eles também gastos - fotocopiados. Não por palavras de ordem presas no tempo, e desadequadas a uma cidade de olhos no futuro. Hoje a cidade imaginada renasceu porque me lembrou de tudo o que foi luta, acção - de tudo o que queríamos, mas, principalmente, de tudo o que ainda iremos desejar. E cada uma das trinta-e-duas ruas da memória passou de manifesto a projecto. Afinal, a cidade sempre manteve as suas cores - apenas estavam empoeiradas. Saí para a praça, e senti que aquele sentimento que julgava perdido ainda lá estava... à minha espera. De cada porta, de cada janela entreaberta - de cada pessoa - um sonho saía. Eram já muitos, enchendo a cidade. Eram estes os sonhos de que os livros de História falavam. Alguns cansados, é certo, mas ainda com força suficiente para se unirem a outros sonhos - para fazerem a cidade imaginada. Deixei também que os meus desejos se libertassem no ar, ganhassem novamente vida. E a cidade acordou.

Hoje, aqui e agora, esta cidade desperta (nem que seja por um dia) disse-me que contava comigo. E eu, de asas vermelhas ao vento, respondi-lhe: «sabes, acho que ainda vamos a tempo!»

R.


P.S. tudo isto a propósito do 25.04 - ainda é possível a utopia...

24 de março de 2006

Um livro teu


Hoje comprei mais um livro teu. Quando os meus olhos se cruzaram com os teus - eu no meio de uma loja movimentada, tu na placidez das capas em que sempre ficaste bem - e reparei que «não, este ainda não tenho...», acho que aquela luz que só nós dois sabemos partilhar acendeu-se novamente.

Lembro-me vagamente do primeiro livro teu que "tresli" - desde esse momento, entraste na minha vida e tens sido um dos principais companheiros de viagem. Aliás, acho que, mesmo sem o saberes, foste tu que me disseste tanta coisa sobre o meu percurso... uma rota que não conseguia descrever, e que tu parecias já ter feito vezes sem conta. Ensinaste-me o ser reflexivo e solitário que todos temos - ou será que apenas nós anjos caídos (como sei que foste) gostamos de sorver as nossas energias da ausência e do íntimo isolamento?

Depois dessa primeira "conversa" contigo, quis descobrir-te mais, saber que outras histórias tinhas no teu caderno de anotações. E foi aí que me deste o teu maior presente. Nas minhas mãos o livro que se tornou a minha bíblia, o meu refúgio quando tudo me parece errado. Contaste-me a história de um homem que nasce e morre sozinho, que amou e foi amado como ninguém, que possuiu tanta coisa e no fim contentou-se com uma cadeira junto à janela. É certo que a minha
viagem não tem sido totalmente como a de esse ser errante - a realidade nunca é tão completa como a ficção. Mas revi a minha alma na alma dele (na tua alma). Com esse livro consegui, finalmente, definir o meu amor pela noite, pelas sombras e sons da cidade que dorme. Foi esse livro que me fez sentir que queria algo mais para mim; não um emprego, não uma casa, não uma amante - mas sim uma essência, uma calma... um amor auto-suficiente. Com ele (contigo) senti-me mais próximo do meu propósito aqui, da razão pela qual as minhas asas escolheram esta cidade para repousar. Sei agora que quero... que necessito das multidões cinzentas da urbanidade de princípio-de-século, dos copos cheios de um qualquer elíxir, de olhar ao espelho e dizer: «mais uma noite sem dormir».

Por tudo isto, hoje escrevo com todos os teus livros em redor do teclado - hoje escrevemos juntos. Pode ser que um dia me sintas digno de conseguir chegar perto de ti, da tua forma sofrida de construires beleza e amor. Até lá, sorverei as tuas palavras vezes sem conta...

Obrigado Sr. Pidwell,

R.

11 de agosto de 2005

Those were the days



Imagem de há uns anos atrás... Xãozinha e Trancinhas em plena diversão LOL

Oferecida por um amigo que embarcou agora numa nova aventura. Que sejas muito bem sucedido 'hombre-caliente' - espero visitar-te em breve!

R.