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17 de abril de 2023

Como se fosse um diário

Como se fosse um caderno. Melhor, um diário. Um diário de bordo de todas as viagens (ainda) por fazer. Um diário com muitas páginas vazias. Viagens e ilusões por desenhar. E sem linhas, para que a única bússola seja a vontade de ser: ser-mais. Quando seguramos um diário sem linhas nas mãos, é como segurar um baú do tesouro - cheio de histórias não contadas e emoções não expressas. Mas que, sabendo do seu inestimável valor, devemos guardar e preservar o melhor que pudermos. As páginas em branco chamam por nós, desafiando a que as povoemos com os nossos pensamentos mais profundos e as emoções mais cruas. Sim, as mais cruas, as que muitas vezes estrangulamos na garganta. Por medo, receio ou incerteza do que essas emoções podem significar… mais ainda, do que poderão provocar. Em nós - no nosso corpo e alma. E nos outros - naqueles que nos rodeiam. Olhamos para as páginas em branco e hesitamos. Será que devemos avançar e pegar na caneta? Que caminho estamos a começar? Mas não resistimos. Há algo sobre a ausência de linhas que faz cada página do diário parecer mais aberta, convidativa. Quase como se o caderno (que é um diário) murmurasse ao nosso ouvido: não te contenhas - deixa-te invadir pela ânsia e pelo coração que bate mais forte - sê TU no modo mais sincero.

Pegamos na caneta. À medida que retomamos finalmente o ofício da escrita, a caneta percorrendo a superfície lisa da página, nasce uma sensação de liberdade, um alívio de todas as emoções esquecidas (ou nascidas neste momento) e que, agora, fervilham dentro de nós. As palavras parecem fluir sem esforço, por não serem limitadas pelas restrições de linhas - que guiam, mas também comprimem. A tinta vai preenchendo cada página num frenesim de rabiscos e letras mal desenhadas - mas que rasgam a capa dura (não a do caderno) que usamos para cumprir os dias sempre iguais. Apesar do aparente caos das páginas, há uma sensação de ordem e beleza na forma como as palavras e as imagens que imaginamos se intercalam, formando uma tapeçaria de caminhos e possibilidades que dizem tanto - mesmo sem uma única palavra ser proferida pela boca.

Voltamos à primeira imagem: o caderno-diário sem linhas é como um espelho. Reflexo em que assumimos e confrontamos os nossos medos e desejos mais profundos, as nossas ilusões e sonhos. E as nossas paixões inesperadas. Pronto, está dito! E à medida que continuamos a escrever, a caneta impaciente a derramar a alma na página, lembramos que, às vezes, não são as palavras em si que importam, mas o acto de escrever, de dar voz ao que (ainda) não foi dito. E também ao que, possivelmente, nunca poderá ser expressado em voz alta. Porque não sabemos explicar, porque não devemos ousar, porque… porque… por tantas razões, convicções e convenções. Nossas e dos outros. Mas, e se este diário, sem linhas que nos restrinjam, for apenas o começo de algo? Se as palavras escritas servirem para mais do que apenas povoar páginas carentes de tinta? E se, no meio de rabiscos e imagens desenhadas em caos, surgisse um sinal de que as palavras afinal poderiam ser faladas em voz alta - e com um sorriso do outro lado para nos ouvir? Um sinal de que era hora de falar, de ser vulnerável e arriscar partilhar o turbilhão que temos cá dentro?

Às vezes, as palavras certas (quais são as palavras certas?) teimam em não aparecer. Parecem tentar fugir - e assim, ficamos indefesos na fronteira: entre o tanto que queremos dizer e o tão pouco que ousamos falar. Mas, e se o diário fosse um mapa? Um caminho para abrir a porta de tudo o que nasceu sem nos darmos conta - e que ainda não sabemos explicar. Neste diário, recente companheiro de insónias inesperadas, as palavras fluem livremente, sem julgamento ou censura, e podemos ousar ser honestos connosco mesmos… e talvez mesmo com quem possa nos ouvir - e saber que, enquanto escrevemos, esse alguém está presente. Ao nosso lado. Porque as frases e imagens com que a tinta vai tingindo as páginas - outrora vazias - são como uma conversa, quase uma confissão. Para alguém que não está aqui… ainda (ou nunca estará). A distância desaparece e quase sentimos. O calor e o toque. O cheiro e o sorriso. O bater mais rápido do coração. A porta entreaberta e alguém a entrar. A ficar - nem que seja apenas por momentos. Segundos que são horas e noites que são vidas. Onde podemos regressar quando nos sentimos sozinhos ou desorientados, e onde podemos encontrar conforto e clareza no meio das rotinas que nos confundem e os pêndulos que não nos deixam descansar. Mas, principalmente, onde afinal descobrimos que (sim!) há um espaço por habitar dentro de nós. Um espaço que não reconhecíamos (quem sabe, nem suspeitávamos existir). E que, mesmo sem procurarmos, ganhou forma e curvas e cheiros e imagens. Um espaço que ficou habitado.

E assim, o diário é um santuário. Do que poderá ser a primeira estação, não de uma via sacra, mas da peregrinação que o espelho nos fez descobrir. Será este caderno que nasceu de um espelho - e cresceu para um diário - afinal um convite? Um desafio à viagem com destino por traçar. Sem certezas que nos segurem, mas com vontades que nos chamem. Muitas páginas ainda vazias no caderno. Para povoar de palavras desordenadas por pensamentos - que nas páginas nascem e aí ficam guardados. Ou para desenhar viagens arriscadas por quem quer mais. Por quem sabe que existem outras vidas que aquelas que nos ensinam os livros de conduta. Que a nossa alma e o nosso corpo são híbridos: cumprem quando assim tem de o fazer, mas fecham os olhos e voam quando não é possível evitar.

R.

20 de março de 2023

Como se fosse um espelho

quem te mandou oferecer um caderno sem linhas?

Como se fosse um espelho. Daqueles espelhos antigos que antes adornavam uma qualquer divisão da casa. Onde nos demorávamos a preparar para sair, a (re)ver as mudanças do corpo, a constatar que estávamos (efectivamente) a mudar - ou então que tudo estava igual ao ontem, ao antes, ao que pensávamos não conseguir mudar. Como se fosse um espelho. Que, por incúria ou decisão inconsciente, tinhamos tapado e guardado num sotão - esse lugar das memórias arrumadas. Memórias que julgávamos resolvidas e encerradas. Ou que, num momento de abandono, haviamos aceite que nunca ficariam resolvidas. E, por isso, esconderamos debaixo de cobertores velhos - na verdade, não são mais que as rotinas a embalarem-nos com os seus afazeres.

Um espelho largado. Há muito que o seu reflexo estava baço e encardido. Nós avançámos. Já não fazia falta esse espelho para o pendular ritmo dos nossos dias. É isso. Não olhávamos mais para nós. Não parávamos. O olhar em frente - os pés em movimento. Porque andar sem parar cansa bem menos que estar quieto. E pensar. E sentir. E respirar fundo... bem fundo. E cansa menos - mas mesmo muito menos - que olhar para nós e ver como o nosso corpo mudou - como a nossa alma sossegou - como a nossa ilusão se aquietou e domesticou. De espelho tapado, não nos regressa a urgência de querer mais. O que vamos tendo é quanto baste. Uns dias seguirem-se aos anteriores contenta-nos. Hesitarmos pouco ajuda a não tropeçar. Em nós. No peso que o corpo dormente tem. E que, com o espelho esquecido, realmente pesa bem menos. Achamos nós...

Como um espelho. Que estava (está) guardado. Quase esquecido. Quase... Porque vamos sentindo - aqui ou ali - um vislumbre do seu reflexo. Como se o Sol teimasse em nunca nos deixar esquecer que um dia ou uma noite, num passado que já nem sabemos quando aconteceu, era esse mesmo espelho que alimentava o que de melhor tinhamos para dar - a nós e aos outros. A chama que nos aquecia o instinto. Um espelho que nos mostrava todas as cicatrizes - e nos ensinava que elas eram na verdade ilhas e aldeias de um país-nosso. Um espelho que desenhava todas as nossas curvas - estradas, vales e montanhas de uma viagem levando-nos para um destino incerto. Mas que não conseguiamos resistir a (incessantemnete) desejar. Porque o mundo-lá-fora era incomensuravelmente menos apelativo que o universo-cá-de-dentro. In/co/men/su/ra/vel/men/te: dois mundos que não podem ser medidos ou comparados. Mas que nós sabíamos - oh, se sabíamos - qual nos alimentava mais. Qual nos fazia vibrar a emoção, tremer o corpo... quase transbordar. Qual nos dava calor e tirava o ar.

Como um espelho. Que mesmo descuidado, ainda estava lá. À espera de nós. Do regresso inevitável. Com esforço, tentámos evitar - mas será que tentámos com força e crença suficientes? Fugimos quando pareceu mais fácil desenhar dentro das linhas do caderno. Mesmo sabendo que nunca fomos bons a artes visuais e a nossa caneta "pede" que nos desviemos para a margem. E mesmo optando - ou não tendo outra hipótese - pelo ofício dos dias sempre iguais, a vaga lembrança do espelho é também a ténue esperança de que (ainda) estamos vivos. Que mesmo nas horas em que cumprimos com o que nos pedem ou impõem, existem segundos em que ansiamos. E volta o desejo de arriscar. De ser mais que o que fazemos, o que conseguimos, quem agradamos ou obedecemos. O desejo de fechar os olhos, abrir os braços e abraçar o que a nossa ilusão sussurra ao ouvido. Deixarmo-nos levar, não pelas contas que temos de pagar, não pelas roupas que temos de lavar, não pelos compromissos que aceitamos sem pensar... não, esquecer tudo isso - nem que seja por breves momentos. Esquecer o nome e a idade, a morada e a ordem de trabalhos que nos chega em emails. Sermos nós, apenas nós. Com as cicatrizes que são aldeias, as rugas que são cidades, as curvas do nosso corpo que são o mapa de uma peregrinação: a rota aos lugares sagrados da nossa emoção. Quando sorrimos, com quem sorrimos, quem nos rouba toda a oratória - que sempre foi o melhor refúgio para não nos sentirmos nús. Fechar os olhos e arriscar. Queimar o livro de normas que um dia alguém escreveu. E que teimamos em sempre cumprir de forma religiosa - como um coro mal ensaiado, mas que, mesmo assim, insiste em comparecer. Quer dizer - queimar não. Sabemos que a ilusão não consegue ser suficiente para cumprir com tudo o que temos de cumprir. [Verbo feio este: cumprir.] Sim, mesmo não podendo queimar todas as regras e condutas que esperam de nós, pelo menos guardar no fundo da mala. Viajar com toda a ilusão em cima, e as normas em espera. Será possível?

Como se fosse um espelho. Que recuperamos afinal do fundo do entulho. Está sujo e gasto da falta de uso e carinho. Porque há muito que a ânsia de olhar o nosso reflexo estava adormecida. Parece que não nos queriamos ver. Não ousávamos questionar. Andámos, caminhámos, corremos. Sempre em frente. Porque é assim que se faz - foi o que nos disseram. E foi isso que fizemos - (talvez até) bem demais. Mesmo sem direito a medalha, continuámos a escolher o conforto de escrever dentro das linhas do caderno. Que nos vai confortando - mesmo que nunca nos sacie de verdade. Mas o espelho está lá. Basta procurar bem e vasculhar cá dentro. E quando, no fundo da nossa ilusão, pensamos em o recuperar... essa ideia invade cada silêncio na madrugada, cada respirar fundo, cada vez que um sorriso (aquele sorriso!) nos tira do sério. Destreinados na arte de nos olharmos mesmo - cá para dentro de nós - vamos hesitando. Porque sabemos que a sede pede água, e a fome de voar cria asas. Torna-se difícil ignorar a comichão nas costas e os pés a fugirem do chão. Mesmo perdidos - é mais certa essa rotina que se repete e apenas nos exige que a sigamos - mesmo perdidos, não conseguimos riscar do pensamento: e se?... E se eu limpar o espelho? E se eu olhar o reflexo de frente? E se eu fechar os olhos e me deixar ir?... E SE?

E se um espelho (que até pensávamos perdido) estivesse aqui. Neste momento. E nós, que sempre temos tanta coisa para dizer, ficássemos calados - por não saber o que dizer - ou por ter tanto para contar e partilhar. Mas as palavras ficam sem voz. Querem sair mas não sabem como. Se calhar, nem sabemos mesmo que palavras são. E se houvesse um caderno. Sem linhas para seguir. Nem páginas numeradas. Nem ordem de trabalhos para aceitar provisoriamente e respeitar de forma cega. Sem tempo contado nem objectivos para cumprir. Sem voz a falhar. Apenas páginas brancas - à espera. E se as palavras presas na garganta tivessem terreno fértil na tinta da caneta. Ganhassem raízes e ali ficassem. E se houvesse um caderno que era um espelho, era uma aldeia, uma cidade, um universo? Um início de peregrinação a lugares sagrados que afinal estavam aqui - no nosso corpo e ou em outro tão perto de nós - e só agora são descobertos? E se... E se a pergunta fosse apenas uma porta a ficar entreaberta?

R.

30 de outubro de 2015

Voltar às areias

Voltar a pisar as pegadas. Que mesmo invisíveis pela acção do vento e das marés - estão lá. Guardadas na alma das areias. As pegadas. O banco. O mar. O passeio de cimento onde a vida não passou por umas horas. Voltar a estar ali. No cais de embarque para a ilha imaginada - onde lancei amarras e, de olhos fechados, deixei que a emoção me levasse.


Estar de volta - e sentir que a praia ainda ficou é minha. E, por isso, preciso voltar. Voltar a correr atrasado. Chegar lá... sentar-me no banco e inspirar bem fundo. Estar de volta ao que (pensava eu) estava perdido. A sensação. A ilusão. O querer estar-ser-arriscar mais. Todas as jornadas exigem uma partida. Um soar da buzina que nos impele a começar - andar - sonhar - viver. E não quero posso adiar mais. Preciso sentar-me lá. No limiar entre a praia e a cidade. Onde os silêncios me souberam tão bem. Onde um olhar e um ligeiro tremor de lábios disse mais que centenas de compêndios e filosofias de trazer-por-casa. Ver se o banco ainda permanece. Se ainda guarda o nosso lugar. Habitar nele nem que seja por momentos. Descalçar-me e enfiar os pés na areia fria. Matar as saudades que sinto dela. Da areia. E ver, ao longe, os barcos a passar. Agora, como antes, já não desejar partir neles - porque a minha viagem era (agora) aqui. Matar as saudades de estar alerta - presente - audaz - vivo.

Passou tanto tempo (demasiado?). Uma vida inteira se desenhou desde esse momento. depois da ilusão, deixei-me perder. Nas cinzas dos dias sempre iguais - no deve-fazer e tem-de-querer. Estória passada. Páginas escritas e agora guardadas - com todos os sucessos e angústias. Mas urge, agora, fazer o caminho de regresso. À praia. Curioso... sinto o frio na espinha da primeira vez. Como se novamente estivesse atrasado para uma ilusão (tão) desejada. Tão (mal) planeada - lembro-me. Mas que - mesmo sem guião - foi palco e enredo para uma estória de emoções. [Sabes?... ainda vou descobrindo grãos de areia dessa noite espalhados pelo meu corpo - sabores de sal a temperar o bater do coração] Voltar lá é, agora, inadiável. Uma exigência - um plano de governo para uma ditadura da alma e do sentir. Voltar. (Mais uma vez) sem guião. (Mais uma vez) lançar-me no desconhecido. Fechar os olhos verdes e abrir o peito. Chega de estar parado - de sentir que fechar as asas sobre mim é melhor que arriscar. Não é - (já) não tenho dúvidas.

Por isso, volto. Não na minha cabeça. Mas o corpo precisa mesmo de regressar. Estar . Onde o coração bateu mais forte. Onde as palavras se perderam porque não eram essenciais. Estar . E, talvez, olhar em volta e dizer: valeu a pena - todas as curvas e contracurvas - todas as hesitações e (quase-)desistências - todos os dias cinzentos. Valeu a pena fazer a viagem pela terra cinzenta. Para que - com a certeza que todos os que acolhem o coração nas mãos - volte à praia. E, novamente, recomece a voar. E assim estarei. E assim farei. Não me lembro da hora marcada, não em lembro de quanto me atrasei (foi muito?). Mas, na noite em que alguns dizem que os espíritos se levantam, eu estarei lá - a re-erguer a minha vontade. Com todas as palavras - ou em silêncio. Com a areia. com o banco. Com o mar. Comigo... connosco.

Estou a caminho,
R.

2 de outubro de 2015

Há muito que... [voltar à casa de partida]

Há muito que não encontrava o livro onde colei todas as fotografias de todas as viagens que fiz. Não das voltas e (re)voltas das rotinas. Mas das viagens que fiz a universos-interiores e países-ilusórios. Há muito que essas viagens estavam transparentes e inertes, escondidas no lufa-lufa dos dias sempre iguais. As viagens que me alimentaram a alma e o corpo... antes de me ter detido em parte (in)certa. Há muito que estava esquecido o caminho para a ilha sempre verde. Onde, em tempos, pernoitava ao relento - deixando que o orvalho me alimentasse todas as ilusões - criando palavras tão líricas como verdadeiras, tão rápidas no som e na escrita como eternas no sentir. Na verdade, há muito que as ilusões não se fixavam tempo suficiente em mim; eram passagem fugaz, sempre a fugir das minhas mãos, escoando-se como areia solta. Mas numa praia suja, sem linha do horizonte.

Ou, talvez, não estivesse tudo isto esquecido. Se calhar, os corredores que me levavam a estas paisagens-da-mente foram dissimulados atrás de portas - fechadas a chaves guardadas no canto mais escuro do baú das memórias. Trancas nas portas, chaves algures guardadas. E assim a poeira foi engolindo as chaves, as portas, os corredores, as memórias - as viagens. Foi uma espera demorada - o tempo em que as asas foram atadas ao corpo, até a sua existência quase não ser notada. A olho nu. Porque os olhos da alma nunca esqueceram verdadeiramente a divisão secreta onde a vida era diferente. E, nesse livro - onde estavam essas viagens, onde estavam essas memórias, onde estavam essas ilusões - ficaram tantas páginas em branco. Como se a promessa de mais viagens estivesse lá, a tentar chamar-me. E, a espaços, ia ouvindo esse chamamento como um sussurro segredado ao ouvido - quase imperceptível, mas que fica a zumbir. Um som agudo que foi tirando a concentração para agir. Uma moinha que dizia "não vás por aí" [ahh, Régio, estavas tu certo ou errado?]. Mas, mesmo com a cabeça em constante sobressalto, fui deixando que a 'vida' [chavão para tudo o que não sabemos-queremos controlar] me levasse por "aí".

O tempo passa. É inevitável. E não há porta que não empene, se o que esconde teimar em ranger, estremecer, ressoar - como se lamentasse o esquecimento a que foi (falsamente) obrigado. A porta range, o corredor estremece, as memórias avivam-se. E tudo muda... novamente. O corpo pede o exercício do risco. De deixar as mantas e mergulhar nas águas que julgamos frias. De fugir da âncora que enferruja, abraçando a corrente que nos leva aos países-(re)descobertos. Ousando as profundidades, percebemos que aí também se respira. Melhor... apenas aí se sente o oxigénio bombear os pulmões, encher o peito outrora encolhido - apenas aí se vê que a penumbra tem mais luz, mesmo com os olhos fechados - apenas aí a a emoção e a razão decidem declarar a sua paixão-indivisível, o corpo é realmente um elemento vivo.

Se, por momentos - longos, demasiado longos - me desviei do caminho, preciso agora voltar. Com a urgência de quem deve empreender uma jornada para salvar um mundo: o meu Mundo. Interior - vivendo de emoção. Único - mas a partilhar com outro ser igual. Quase impossível de descrever por palavras - mas de fácil compreensão, bastando um ligeiro tremer dos lábios ou um piscar de olhos. Voltar à casa outrora solarenga. A casa onde dispus todos os meus livros, todos os meus discos, todas as fotografias que recolhi - em todas as viagens que fiz, mesmo quando parado num banco de jardim numa praia de outono. Voltar agora à casa onde janelas há muito estavam fechadas. Onde, durante muito tempo, ninguém habitou. A casa que um dia, quase sem perceber, coloquei à venda pelo pior preço. E que, por fim, descubro como para-sempre-minha. Chegou a hora de a habitar e abrir as janelas de par em par - a noite pede que asas voltem a abrir, o sangue a correr, os olhos e os lábios a saciarem a sede na sombra que deixei escapar entre os dedos. Mas que se manteve ali, presa em mim.

Até já?
R.

22 de janeiro de 2014

A verdade é que... [versão curta]

para ti. para que as palavras que não se podem (ainda) dizer não fermentem e desapareçam.

A verdade é que... é mais fácil sentir e guardar - cá dentro. Saber que se deseja algo. Ter alguém. Ir para algum lugar. Partir e recomeçar - ou aguentar e tentar. Sim, é mais fácil sentir... que fazer. Arriscar mesmo, deixar que os nossos ensejos ganhem forma e corpo. Sejam mais que palavras bonitas ou iradas. É mais fácil ficar pela ilusão. Porque avançar e insistir nela é ter de suportar todo o seu peso.

A verdade é que... o tempo que fomos marcando para saber se o caminho percorrido é certo acabou por nos trair. Todas as horas, minutos e momentos que assumimos como etapas para avançar - ou abandonar - foram sendo trocados por emergências, por fugas ou interrupções. Os momentos em que o prazer e o sorriso nos encheram o espírito têm sido demasiado fugazes. E os tropeções e mágoas parecem-nos eternos.

A verdade é que... temos andado às cabeçadas. Um com o outro. E cada no seu pequeno lugar de isolamento - onde nos refugiamos quenado percebemos, repetidamente, que isto custa. Temos andado em luta com a vida que nos rodeia - porque nos sabe bem estar nesta bolha. Temos andado em luta entre nós - porque as incertezas são muitas, as falhas no discurso e na acção imensas... e mesmo a paixão deixa marcas que nos esbofeteiam, lembrando que estamos a arriscar um jogo que dominamos mal.

A verdade é que... as noites boas transformam-se, por vezes, em dias maus. Em manhãs cinzentas, porque as certezas foram-se. Os riscos da ilusão ser apenas(?) mesmo ilusão acendem-se. E a surge incerteza de que nos estaremos a enganar. O sorriso que tomámos como certo parece que perde a força quando atirado à poeira dos nossos dias - os dias em que não estamos juntos. Numa dança bipolar, atraímo-nos e afastamo-nos repetidamente - duvidando se dançamos ou lutamos.

A verdade é que... não procurámos isto. Sejo lá o que for. É certo que não fugimos a sete-pés, não quebrámos todas as pontes que encurtavam o caminho. Mas fomos descobrindo uma jornada que nos parecia segura. Que nos saciava a vontade de saber mais sobre esta inusitada descoberta. Mas que, ao mesmo tempo, defendia um último reduto. Palavras ao invés de toques. E assim fomos ficando. Enquanto as desculpas foram fáceis de inventar. Até esgotarmos as palavras. E, mesmo assim, ainda estarmos um defronte do outro. A querer mais.

A verdade é que... as palavras acabaram, definitivamente. Tudo o que se disser já não serve. Porque as  bocas estão secas de tanto falar - e de tudo o que gostariam nunca calar. E o corpo... bem, o corpo gosta menos de regras e de imposições. Sabe exprimir-se sem correntes, mesmo que não queiramos. Sabe dar-se em paixão - sabe encolher-se a um canto em sinal de desistência. E, assim, enquanto as palavras poderam transvestir-se em lirismos e poesias, o corpo prendeu-nos ao verdadeiro. A última fronteira foi ultrapassada. E não mais será possível voltar atrás.

A [grande] verdade é que... decidi que um novo caminho teria de ser desbravado. E imaginei vontades. E etapas e tempos a cumprir. Com menos palavras - mais decisões. Para que tudo fosse sonhado, pesado, aceite e arriscado. Mas tenho sido traído. Por uma auto-inépcia que me custa aceitar - lido mal com o (meu) cansaço falta de vontade. Mas também porque cada passo na direcção de um qualquer caminho tem trazido cicatrizes duras de aceitar. Como se a vontade de ser diferente - não melhor, mas diferente - estivesse a ser testada. Só que escasseiam-me as forças. Quis fugir de me sentir mal - e parece que as sombras estão sempre na próxima esquina.

[Mas] a [maior] verdade é que... custa muito estar aqui. Dentro do que sinto - do que quero. E não tenho. E saber que nem sempre as palavras bonitas levam a ilusões emocionantes - e que nem sempre as ilusões têm força suficiente para se aguentarem ao vento e frio que sentimos "cá fora". E, na verdade, hoje sinto-me gelado. Porque custa ainda mais sofrer por dois... mas aqui, sozinho.

R.

p.s. desculpa.

26 de junho de 2012

Apagar as palavras

Vou percebendo, pouco a pouco, que desenhei muito... talvez mesmo demais. Aceitei - com ou sem consciência - este ofício de ilusionista de mim próprio. Criei castelos feitos de nuvens que julgava sólidas o bastante para segurar as minhas asas. Mas não existem nuvens que aguentem as fortes rajadas. Do tempo. Da rotina. E, sim, da minha incúria. Achei-me com capacidade suficiente para fazer o malabarismo. Para ser tudo, pedindo nada - de um lado. Para querer tudo, tendo apenas imagens para retribuir - do outro lado. Mas a incúria de nem sempre ter energia para sustentar as duas faces da moeda que sou eu acabou por me apanhar. Deixando-me ser pouco na cara - fraco demais na coroa.

Como as ondas que vão rebentando na nossa "praia" (ainda te lembras dela?), as marés altas deram lugar a baixios que mal dão para molhar os pés. E eu sou bem melhor a falar de navegação que a propriamente nadar. Até à ilha, a nossa ilha - que ainda está lá, mas que parece agora pouco acessível. Continuo a imaginá-la de forma igual. Mas deixei fugir a ponte que me levaria lá. Que nos juntava lá. Como, quando e porquê... não sei. Num dia, tudo estava tão perto - no outro, as imagens estão já desbotadas. O muito que se disse mudou para pouco que ficou.

Na verdade, estou farto de falar. Esta verborreia que, um dia, já foi o início de tudo - é agora um obstáculo a que as imagens ganhem vida para lá da folha de papel. Porque pareceu, durante muito (demasiado?) tempo, suficiente - fomos nos alimentando de palavras bonitas e pequenos momentos de toque. E não pedimos mais. E porque, na abundância de palavras, os vazios que ainda existem estiveram escondidos. E agora, que as palavras estão fracas, esses vazios são escuro e penumbra - e parecem engolir quase tudo.

Até mesmo a minha capacidade de falar.

R.

6 de janeiro de 2012

Retomar(?)

para ti. por teres estado aqui...

Olhar para trás e tentar (retomar) uma linha que ficou em pausa. Talvez esquecida. Ou demasiado presente, mas sem espaço para se impôr. Nos últimos traços e jornadas fui perdendo algumas pequenas (grandes) conquistas. Países que descobri - mas que agora pareço visitar raramente. Talvez mesmo já não saiba a cor da sua porta - ou a luz que irradia por entre os cortinados que vão ornando o casario que me encheu a alma. Sim, é fácil querer pôr o corpo a caminho. Mais ainda quando se traz o entusiasmo da descoberta e a força das palavras. Das palavras que tornam tudo mais belo... o que sentimos - queremos - alcançamos... mas também aquilo que intimamente sabemos nunca estar ao alcance dos dedos. Se a dança dos sons e das metáforas não me tivesse prendido definitivamente, talvez tudo pudesse ser resumido num: "falar é fácil - ser e arriscar é algo bem diferente". Mas não quero - sabe-se lá porquê - deixar que a banalidade seja outra derrota a juntar ao rol recente de não-vitórias. E, por isso, é na cegarrega do dizer-por-outras-palavras que vou vogando. Até para (me) queixar devo nunca esquecer o que me prende aqui. O que pulsa dentro de mim. E que é, afirmo, bonito.

Pouco a pouco, fui deixando embalar-me por equívocos. Por caminhos que não fui eu que defini. Ou que desenhei, mas sem as asas a ampararem-me a decisão. Deixei-te, meu anjo de asas azuis, por relógios e transportes públicos e crises de demagogia e pouco saber. Mas, se posso tentar ter defesa, tenho de te confessar que não notei. Não foi propositada a distância que foi sendo cavada entre nós. Uma noite dormia a teu lado (mesmo que apenas em sonhos) - e num dia de sol escondido descobri que há muito que não sinto o teu calor a chamar pelo meu. E o tempo tinha-se escoado sem deixar marcas. E o que era bem presente em mim - nós - é, neste momento, uma lembrança que tem pó e saudade. Sim, fui deixando que o grande equívoco me traísse a vontade e a ilusão: o equívoco de que, uma vez agarrado, o sonho nunca foge. Não, ele tem de ser regado sempre - amado - mordido - amassado e sentido com o corpo e a alma. Mas, acima de tudo, o sonho da praia deserta e do orvalho tem de ser colado às rotundas dos dias chuvosos. Não há ilusão que resista ao sono e cansaço das noites mal dormidas.

Terei perdido o mapa do teu país? E onde se quebrou a linha invisível que parecia feita de aço e à prova de rotinas e regras? Não sei... E se tu o sabes - se calhar, passou já o tempo exacto para partilhares comigo. Agora, serei (talvez) mais uma fotografia na tua estória. Talvez mesmo numa página que já colou a tantas outras por falta de visita. E a culpa é minha - sei isso bem (demais). Porque nunca o amor dos olhos verdes de um anjo pode combater sozinho o desmazelo do cabelo preto despenteado de um homem. Mas nunca fui muito bom a pedir ou exigir ajuda. Criei o hábito de voar solitariamente pelos céus da cidade que nunca dorme. E quando te deixei entrar, quase sofregamente como quem rouba um tesouro, não soube acautelar-me(-te)(-nos) para as paragens, os descansos na viagem - os momentos necessários de pausa. De desligar o sonho e aguentar a rotina. Por não preparar o terreno, não delineei como ser um anjo que partilha. Tive-te em mim - guardada. Mas deixei-te sozinha cá dentro - enquando fui outro, menos interessante. E, inevitavelmente, acabaste por querer sair. Deixando a porta aberta. E criando-me a ilusão de ainda aqui estares. 

Talvez o mapa perdido seja o meu. É isso. Como retomar a ti... quando não sei onde estou e para onde devo dirigir o meu vôo? Como te posso chamar de novo - arriscando que já não saibas a minha voz - se me desabituei a falar a nossa língua? A língua daqueles que sabem haver um universo-cá-de-dentro que se impõe, nem que seja por momentos, ao mundo-lá-de-fora. Estou destreinado - como há muito não estava. Deixei-me enredar num plano que tinha prometido resistir. Cavou-se um fosso entre o aqui e o . Uma distância sem medida - desconhecida. E as minhas forças voltam a estar fracas. Por ter sido apanhado sem cautelas neste dia-a-dia que não domino. E onde tu não estás. Olhar para trás e tentar (retomar) uma linha que ficou em pausa. Talvez esquecida. Ou demasiado presente, mas sem espaço para se impôr...

... Preciso de me redesenhar. Como se ainda aqui estivesses.

R.

8 de setembro de 2011

Ainda não

para a Bia.

em algum lugar as horas passam
mas não aqui.
em algum momento seguimos em frente
mas - agora - não aqui.
e sabemos que vai passar
mas - hoje - ainda não.


e não é por corrermos sem parar
que deixaremos de ser apanhados
eventualmente
hoje ou noutro dia.
e não é por pintarmos um sorriso na ferida
que ela deixa de doer.


amanhã o sol nasce
como a lua se seguirá.
as mesmas casas e ruas
mas menos pessoas.
dias parecidos aos de antes
mas não os mesmos.


a idade vai obrigando
a fazer contas de diminuir.
nos nomes - mas não nas caras.
nas palavras - mas não nas memórias.
no toque - mas não no amor.


aqui estamos juntos.
(mas) hoje menos um.

R.

3 de junho de 2011

Querer e (não?) poder

Querer e não poder. Porque sim... ou melhor, porque não. Afastar o chamamento dos sentidos. Fechar os olhos às imagens que se desenham e que me puxam para beira do que será um precipício. Não ouvir os sussurros que apelam à minha vontade. Refrear as mãos que procuram descobrir novos caminhos, novos lugares onde morar e desbravar terreno. Saber que a saliva se quedará sozinha, sem sentir o gosto ácido - ou doce - do fruto apetecido. E tentar ignorar o cheiro bom de um feitiço que nos cerca, deixando-nos (quase) indefesos aos seus encantos. Assim é querer e poder - mas não dever. Saber que, uma vez a porta aberta, um novo universo se abre. Saber que cruzar essa porta é esquecer o nome e, nem que seja por momentos, esquecer tudo lá-fora. Ficar apenas cá-dentro. E isso bastar - ser mais do que suficiente - ser tudo o que queremos.

E a dúvida cresce. Querer é poder, por imperativo da vontade e da ilusão. Querer ser mais... ser mais que um punhado de laços e regras. Sermos nós. Dos pés à cabeça, passando por cada milímetro do corpo. Sentir cada textura de nós chamar por algo mais. Querermos que os olhos se refresquem nas sombras que desenhamos na quase penumbra. E deixar que essas sombras tragam até nós os chamamentos da sereia. Descobrir com as mãos e corpo as formas suadas de um planeta por desbravar. Comer, morder, lamber ansiosamente os frutos, como se nunca antes tivéssemos sentido sabor igual (e teremos?). E o aroma que sempre nos cativou, senti-lo mais próximo - deixar que nos invada e se funda com o nosso próprio cheiro. Mas também abrir as cancelas da alma. Deixar o (e)terno viajante ganhar sobre o "perfeito" morador. Guardar numa gaveta as incertezas e ponderações. Avançar sem receios ou moralismos. Saber - acreditar - que somos mais do que apregoamos aos quatro ventos. Aceitar que não somos - nunca o fomos sequer - perfeitos. E que a ilusão também tem lugar em nós. Essa ilusão difícil de explicar e ainda mais de seguir. Mas que nos preenche - nos puxa. Como se de uma linha invisível se tratasse, seguimos a estrada amarela em direcção a Oz. A um feitiço que ninguém viu, mas em que acreditamos piamente. Porque sabemos, bem cá no fundo, que foi por ele que sempre chamámos em sonhos. E que ele não substitui a realidade palpável de todos os dias... mas sabe igualmente bem. E, assim, queremos os dois.

Querer o que não se diz - pela razão que não se aceita. Mas, num instante, tudo muda. Apenas bastando, para isso, um "vem". E a razão termina onde a ilusão se impõe... E, mesmo sem saber se estamos prontos, fechamos os olhos. E vamos.

R.

14 de janeiro de 2011

Os espinhos na carne

A capacidade de esforço nem sempre é recompensada pela efectividade de uma recompensa. As respostas dadas a perguntas que fazemos a nós próprios deparam-se, não poucas vezes, com becos em que não existe saída - ou essa mesma saída está dissimulada por detritos e cartazes já gastos de espectáculos que nunca quisemos ver. Desenhamos - ou melhor, EU desenho… já que não sei falar para além de mim - estratégias que julgamos perfeitas, ou no mínimo satisfatórias. Pintamos cores em mapas fotocopiados de livros onde tudo corre sempre bem. Mas as cores são inventadas. As cores são despejadas sem sabermos a sua correcta ordem e quantidade. Um mapa de cores vibrantes tem um brilho que não é igual para todos. Ou tem legendas e escalas em medidas que mais ninguém aprendeu.

Muitas vezes, descobrimos que a nossa escola é apenas partilhada por poucos. E que esses poucos não vivem no mesmo sítio, não falam da mesma forma. A nossa escola está em vias de extinção. Somos poucos - e não somos bons - custa, mas é verdade. Ou sabemos de menos, ou temos de menos, ou queremos de menos. A nossa oratória já está gasta. Já o desconfiava… sei-o agora com toda a certeza. Aqueles que estavam do nosso lado estão cansados. Outros achavam mais fácil. Que bastaria dizer que se quer - ser assim, estar assim… pensar e viver assim. Resta saber de quem é a fraqueza - se nossa, se deles. Da minha parte, admito-a - infelizmente. As forças de inventar e reinventar já foram mais. Mais do que me frustarem os resultados, é o processo que me está a custar muito. O tempo que demora. As horas terem espinhos. E cada passo - cada metro - faz feridas nos pés. E não existem chagas que justifiquem a via sacra. E não pode haver contentamento quando quando nos espetam facas nas costas. Embrulhadas em sorrisos.

Hoje estou assim. Desiludido. Mais do que com o caminho, é com a dureza e por irem escasseando os apoios. Não faltam aqueles que fariam melhor. Assim o afirmam peremptoriamente. Muitos sabem muito - mas conseguem o mesmo pouco que eu… ou ainda menos. Só que eu admito que, por vezes, a via que todos julgam ser a mais fácil é a que me interessa. E aliás, ela não é mais fácil - é (apenas?) a necessária neste preciso momento. Nesta etapa em que me encontro. E "esses" - os de fácil julgamento e gigante presunção - ainda não tiveram de tirar espinhos da carne. Não quiseram risco de fechar os olhos e voar. Apenas falam dele à boca cheia - anuncia a ilusão como se fala do éden. Mas o paraíso deles é apenas teórico. E, precisamente por isso, ainda não perceberam que esse éden não existe. Fora dos livros que carregam para todo o lado. Com a capa virada para fora - para que todos os outros vejam e suspirem de admiração. Eu já não suspiro por irrealidades. Amo e quero - com todo o meu corpo - prazeres reais. Daqueles que não têm invólucros bonitos, mas que alimentam e sabem a vida.

Acima de tudo, já não quero conversa fiada. Quero ir a jogo com quem sabe chorar enquanto luta com todas as forças. Que beija sofregamente - porque não sabe fazê-lo de outra forma. Os outros, quero-os de lado. Deixem-se estar na bancada, enunciando teorias sobre o mundo das utopias. Estou em campo, pronto para a batalha. Os vossos assobios não chegam aqui. Não sou anjo de capela. Nem loiro, nem assexuado - muito menos santo. Tenho o cabelo da cor da noite - olhos verdes como os campos do horizonte - asas vermelhas de sangue e raiva e amor e ilusão e necessidades e energia. Estou aqui. Onde tudo se decide. E não estou pronto para desistir.

R.

16 de julho de 2010

Via sacra(?)

Os olhos baços. E as pernas quebradas. Estou cansado. As manhãs parecem não existir. As longas noites de insónia vão quebrando as fronteiras entre o que é - deveria ser - o dia e a noite. Os meus olhos fecham e abrem... e quase parece que o tempo não passou. Não existem pausas - nem intervalos para recuperar o fôlego. Um sentir ininterrupto - entre as mãos do trabalho e as asas da emoção. E neste caminho que percorro vai-se diluindo o sentido da jornada. Vou perdendo a noção e as razões de as noites e os dias se colarem quase na (im)perfeição. Porque há algo de macabro em forçar a alma a acompanhar os ritmos do corpo. Porque uma é frágil - e o outro... muitas vezes também. E porque o sonho e o desprendimento nem sempre ganham à fadiga e o desalento. E os prazeres da madrugada perdem cor quando a manhã raia, e temos de vestir uma roupa - e tirar o brilho dos olhos, para não ofuscar ninguém.

Vou sentindo as horas, minutos e até segundos passarem por mim como água corrente de uma fonte. Vou sentindo cada momento escapar-se por entre os meus dedos. E os silêncios que me tranquilizaram tornam-se agora incómodos. Demasiado ruidosos. As noites de acalmia são agora noites de solidão. Porque me habituei a ficar aqui - assim - sozinho. Criar um mundo a uma só voz. E que agora também ela se cala. Parece não haver nada mais a inventar ou a dizer. As cores que insisto em pintar vão perdendo o tom. Eu vou perdendo o tom. Existe uma monotonia neste mundo que inventei. Porque é um mundo de extremos. De excesso de palavras e fotografias. Mas também de ausências e faltas. As ruas desertas estão mesmo desertas. E o cão que sempre ladrou em solilóquio nas minhas memórias de viagens na noite parece ter partido para outras paragens. Onde outros cães - e gatos - e pessoas - o acompanham num concerto de vozes e murmúrios. E eu aqui fico. Nesta rua onde sempre habitei. Que desenhei a meu prazer com a quantidade exacta de candeeiros e janelas - com a quantidade exacta de sombras e silêncios. E onde me senti sempre bem. Porque não há tela melhor que aquela que encontramos (quase) vazia. Porque poderá ser o que desejarmos. Mas agora, esta rua mostra-se como sempre foi - uma rua vazia, onde não há pessoas - onde as janelas estão fechadas, e todas as luzes já se apagaram. Onde nem um solitário cão me acompanha com o seu ar complacente e companheiro. Esta rua é uma via sacra que pareço ter de cumprir em isolamento. Lamber as lágrimas e as chagas do abandono. E usar uma coroa de espinhos, em honra das memórias de noites passadas.

O ser divino que vai sugando a noite com os lábios, oferecendo os seus braços e asas, fica por vezes fraco. Porque ser-se anjo cansa - exige de nós a energia de muitos mundos. Um por cada memória ou ilusão. Por cada beijo ou toque. Por cada olhar ou abraço. Não existem meias-medidas para quem deseja o prazer. Mas cansa. Porque damos tudo. Corpo e alma. Em cada aventura. Arranhamos e mordemos. Amamos com as mãos, olhos, boca, cheiro, sexo... Largamos a roupa-de-pesos e voamos em direcção a ilhas imaginadas. E, por isso, também quebramos. Tenho arquipélagos infindáveis dentro de mim. De alguns esqueci já o nome. Mas estão aqui dentro - de mim. Ocupando o espaço do descanso. Da tranquilidade. Da acalmia. No interior do meu corpo perdeu-se o lugar para estar quieto. Ficou apenas a impaciência. E nem as quebras e os alarmes - nem as quedas e pequenos-grandes desesperos amenizam esta vontade de... de... nem sei bem. De continuar cansado mas sempre alerta. De saber que nunca poderia ser e viver de outra forma. De não aceitar que existe uma fronteira bem vincada entre a noite e o dia. Ou pelo menos, combatê-la até ao limite. Sabendo que há (haverá?) um preço a pagar.

Aceitei esta via sacra. Mas não quero a redenção dos meus erros. Amo e desejo cada um deles. Cada cicatriz. Cada grito ou suspiro ou gemido. Nunca acreditei muito em destino. Mas se estiver enganado - e como gostaria - este é o meu. Querer mais mais. Sofrer por vezes. Chorar e berrar escondido na sombra. Morder a paixão e a luxúria. Seguir cada passo de uma via (por vezes) dolorosa. Sem desejar ascender aos céus. Como não trocaria os meus olhos verdes, não troco os meus pecados por nada. Se tenho de caminhar sem descanso - pois que seja. Aceito. Quero. Permitam-me apenas que às vezes fraqueje... como hoje. Até um anjo precisa de descansar (pouco).

R.

4 de junho de 2010

Post-it

Estou só. Estou só. Estou só. Estou só. Estou só. Estou só. Estou só. Estou só. Estou só. Estou só. Há tanta gente aqui. Um silêncio que não consigo quebrar. Um silêncio que não consigo quebrar. Um silêncio que não consigo quebrar. Um silêncio que não consigo quebrar. Um silêncio que não consigo quebrar. Um silêncio que não consigo quebrar. Um silêncio que não consigo quebrar. Um silêncio que não consigo quebrar. Um silêncio que não consigo quebrar. Um silêncio que não consigo quebrar. Demasiada gente aqui. A vontade do recomeço. A vontade do recomeço. A vontade do recomeço. A vontade do recomeço. A vontade do recomeço. A vontade do recomeço. A vontade do recomeço. A vontade do recomeço. A vontade do recomeço. A vontade do recomeço. Estou eu a mais.

R.

11 de abril de 2010

Acende-se uma luz

Acende-se uma luz - algures.
Existe um fogo - cá dentro.
Há uma inquietude - que treme.
Termina com o dia - o meu sossego.
Depois do fazer.
Agora tenho o querer.
Depois da rotina.
Agora preciso da fuga.
Troco as mãos.
Pouco calejadas - do pensamento.
Pelas asas.
Com muitas marcas - da emoção.
Os olhos verdes - estão cansados.
De muito olhar.
Os olhos verdes - estão ávidos.
De descobrir o que está além.
Os cabelos negros - desalinhados.
Que assim se mantêm porque... sim.
Os lábios - vermelho-vivo.
Do sangue ou paixão.
De ambos.
À medida que vou fechando a porta.
Que dá por encerrada a jornada do dia-a-dia.
Vou abrindo a janela.
Deixando entrar a noite e os seus murmúrios.
Existem vozes que ecoam no fundo da rua.
Ébrios ou perdidos.
Existem sujeitos e predicados por cumprir.
Aqui nesta janela.
E em tantas portas raramente entreabertas.
As ideias revoltas.
Os pensamentos (im)puros.
Esquecer o que se faz.
Inventar o que se deseja.
A fronteira entre o sonho e a prática.
O limite entre o ser e o viver.

Acende-se uma luz.
Uma tocha feita de memórias.
Acende-se uma braseira na alma.
Que nos aquece o corpo.
E (mais que tudo) a alma.
Numa noite que parece não ter fim.
Feita de insónias e inquietações.
Feita de mim.
De cada fotografia que tirei.
E daquelas que imaginei.
Das palavras que fui sangrando.
Neste papel que não se toca.
Mas onde se sente.
As feridas das grandes guerras.
E os sorrisos das pequenas fortunas.
Cada pena das minhas asas.
Cada estória de mim.
Cada marca da minha pele.
Cada acidente do meu corpo.
Tudo o que tem importância.
Nas sombras da noite.
Tudo o que invento.
Tudo o que desejo.
Tudo o que sou...

Acende-se uma luz.
Um fim de túnel.
Uma casa de partida.
Sem destino marcado.
Acende-se uma ordem.
Um imperativo.
Acendem-se todos os poros.
Do corpo que invado e destruo.
Que é o meu reduto.
Sagrado mas também profano.

Acende-se...
... uma (outra) vida.

R.


12 de março de 2010

Desabafo depois do susto

para a M. - obrigado por teres estado lá

Aqui estou novamente. Depois de andar desaparecido - e de me sentir ainda muito desaparecido. Desculpa esta ausência. Como já te tinha dito, às vezes sentimos a ausência quando menos a esperamos. E somos surpreendidos pelo inesperado. Neste caso, pelo inesperado do corpo.

O meu corpo falhou. E, de repente, voltei a sentir-me mortal. Indefeso. Na madrugada do passado domingo, o meu corpo falhou. De volta de uma noite de convívio, ele falhou. De repente, ao deitar-me, senti tudo a desaparecer. As minhas entranhas rebelaram-se. No espaço de poucos minutos, deixei de controlar tudo. As mãos, as pernas, o corpo. Fiquei paralisado. Literalmente paralisado. E enquanto tudo e todos viam este anjo a ficar rígido, contraído, eu comecei a sufocar, a deixar de respirar. O coração quase a rebentar, os pulmões a deixarem de funcionar. Veio uma médica-anja amiga. E veio um bombeiro amigo. Para poder pegar no meu corpo agora já demasiado pesado. E finalmente, quando ninguém sabia o que pode ser feito, vem a ambulância. E eu a desaparecer.

Mas todos os sinais estão bem. É o que dizem a quem está ao meu lado. E que eu oiço. Sim, quase como se corpo e mente se tivessem separado. Não controlo o meu corpo - mas oiço tudo o que dizem. E a hora - e a hora e meia - o tempo passa. A ambulância não me leva. Porquê, não sei... E assim fico. Até adormecer. Ou desmaiar.

Acordo tempo depois, já refeito. Mas o corpo e a alma cansados deste esforço que não pedi. E que chegou sem ser anunciado. E deixou marcas. Ando cansado. E assustado. Em baixo de forma. E ficou a incerteza do que aconteceu... preciso de saber. E amanhã faço análises. Depois, farei exames. Eu, o anjo que se arrepia com agulhas e seringas, com o éter e os hospitais, perdeu de repente o medo. Disso. Porque um outro medo se sobrepôs.

Por isso, aqui está a razão da minha ausência. Porque me mexo mal. Porque ainda estou mal. As forças vão voltando. Mas a minha sombra continua bem maior que o meu corpo. Fico cansado rapidamente. E perco muitas vezes a memória imediata. Do que me disseram há poucos minutos. Mas, dia após dia, o meu sorriso recomeça a rasgar-se.

Mas voltarei. Prometo.

Até já,

R.

3 de março de 2010

Eu não sou eu...

Eu não sou eu - assim começava o poema do Mário de Sá-Carneiro... Nem sou o outro - assim continuava. É dessa forma que começo agora a imaginar-me. Não sou facilmente definível. Não sou, de forma alguma, alguém que possa ser resumido num bilhete de identidade - agora cartão do cidadão - nem através de um currículo ou biografia. Nem eu próprio acerto com uma definição final, correcta e decisiva de quem se esconde por detrás deste nome - desta cara - deste corpo - desta alma. Existem duas faces para esta moeda. Dois corpos num só corpo. Uma alma partida em duas metades - nem sempre iguais. Uma fénix e um anjo. Umas mãos e umas asas. E sempre os mesmos olhos. Mas com sorrisos e lágrimas divididas. Umas com sabor a sala. Outras a sangue. E é numa fronteira aberta entre dois países que me encontro. Eu. No meio. Num crepuscular estado de indecisão.

Sou alguém que trabalha. Muito. Imensas horas. (Quase) todas as horas. O que outros poderão chamar de workaholic, eu chamo de necessidade de sangrar ideias de todos os poros de mim. De me sentir sempre em movimento contínuo para a frente. Às vezes sinto que lido mal com a estagnação. Com o aceitar que amanhã - daqui a um mês - daqui a um ano - tudo estará igual. Mesmo que esteja bem, não quero. Quero a diferença, a novidade. Não prescindo da surpresa. Da excitação e do medo do desconhecido. Da possibilidade de as coisas não correrem bem - ou então, serem um estrondoso sucesso. E sou muito frio. Racional. Sou a melhor pessoa para aguentar uma hecatombe. Porque mesmo no último segundo, eu arranjo a solução. Nem que para isso tenha de me imolar. Repetidamente. Sou uma fénix de trabalho. Morro continuamente. Mas no dia seguinte, estou já de volta com um sorriso. Mesmo que, por vezes, seja um sorriso amargo. E nisso sou bom - sou muito bom. A inventar. A aprender sozinho. A ajudar. A estar de prontidão. E sempre alerta. Tudo o que quero fazer, faço. E, não poucas vezes, faço bem. Mas isso é pouco - para mim, é muito pouco.

Mas também sou um anjo. Mais recatado. Que se esconde. Por vergonha. Ou recato. Um ser mítico que abre as suas asas vermelhas da cor do sangue e da paixão. Que tem cabelos da cor da noite. E olhos verdes onde se podem ver todas as estórias secretas do amor. Que ama como se não houvesse amanhã. E que quer ser amado como se fosse o único. Que não dorme. Que não quer dormir. Nunca. Que escreve para não rebentar. Que não se cansa de ver os outros. De lhes aprender as formas e as texturas. De lhes sentir o sabor. Um anjo que não consegue evitar ser assim. Em eterno estado de tensão. Sempre em busca do sorriso mais bonito. Da palavra mais intensa. Do beijo que pode mudar o mundo - o meu mundo. E que já descobriu que o prazer reside em satisfazer os sentidos. Os cinco originais e um sexto, talvez mesmo o mais importante... a imaginação. Admito ser um anjo sensível - mas não serão assim todos os anjos? E não resisto a toques e sussurros. A olhares. A cheiros e sabores. E não resisto a imaginar-me aqui e além. Sem barreiras. Sem inibições. Apenas eu e o meu corpo... e quem me quiser acompanhar. E descobrir os mundos que se escondem para além da linha do horizonte. Bem nos confins da cidade que nunca dorme.

Por isso, eu não sou um - nem outro. Não sou apenas aquele rapaz que nunca desiste. Que erra muitas vezes, mas nunca dá parte de fraco. Que se expõe às balas - mas que ninguém vê sangrar. Mas tão pouco sou sempre um anjo a caminho da redenção. Que está sempre de asas abertas e pronto a voar para ilhas imaginárias. Onde tudo é possível. O nosso corpo é possível. O nosso amor é possível. Nós - agora - hoje - somos possíveis. Não, sou um intermeio. E raras vezes sei onde se extingue um e começa o outro. São indissociáveis. Para mim. Para os outros, sou uma fénix. (Ou) sou um anjo. E raras vezes me dou a mostrar como um todo. Não sei se por defesa. Ou por incapacidade de ser homem e ser mítico em simultâneo. Ou apenas medo de não ser bom o suficiente em seja o que for. Seja nas mãos - ou no coração. As minhas asas vermelhas parecem atrapalhar as minhas mãos sempre prontas a trabalhar. E os meus pés quarenta-e-dois são peso demasiado, nunca me deixando voar para muito longe. E, por isso, estou sempre aqui...

Eu não sou eu nem sou o outro / Sou qualquer coisa de intermédio: / Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro. (Mário de Sá-Carneiro)

R.

12 de fevereiro de 2010

Carta para falar de mim (mais uma vez)

É nas horas que se confundem entre a noite e a madrugada que finalmente falo contigo. E parece que se criou o hábito de demorar muito a responder ao que me dizes. Mas, desta vez, não pedirei perdão pelo tempo passado. Digo mesmo que não faz mal - tudo o que é esperado ganha outro sabor. A espera traz a acidez dos olhos aguardando as letras se formarem à sua frente. E a doçura do sorriso que se cria quando finalmente o ansiado retorno surge. E essa espera (que deve muito ao pendular movimento dos dias e das rotinas) é também o que me move. O achar sempre que existe algo mais a descobrir. Novos caminhos, novas formas de ler, ver, agarrar. Novas pessoas. Novas estórias e memórias a inventar.

Sabes, acho que também é isso que vai movendo a minha caneta. É esse querer não estar parado que me vai impulsionando a partilhar as palavras-frases-sentimentos-estórias com outros. Sim, claro que gosto de saber que gostam do que escrevo. Ou que o que digo lhes é próximo - que alguém se pode rever e sentir o mesmo. Mas, acima de tudo, acho que é quase um verter de sangue e lágrimas para o papel. Não como uma ferida que nos magoa e tolda os movimentos. Mas antes o expor à luz do dia e ao fresco da noite as partículas que nos fazem ser quem somos. Tudo o que vivemos. As memórias. Os cheiros e os sons. E ainda o que desejamos alcançar. Os mapas de viagens imaginadas - quem sabe impossíveis de concretizar, mas mesmo assim essenciais para tirar a 'nossa' fotografia.

Se esse sangrar pode ser chamado de dom, já é algo que não sei... Não vejo nele algo divino, antes pelo contrário. Acho que é a forma que encontrei para me sentir mais 'humano', mais ligado aos meus sentidos e emoções, e menos automatizado às rotinas que, querendo ou não, fazem parte da nossa vida-de-todos-os-dias. Vejo mais um dom no que proclamas para ti. Ou terei sido eu a proclamar - e tu aceitaste timidamente? Essa capacidade que assumes de fazer bem a quem te rodeia. De transmitir essa energia positiva. E não duvido minimamente do poder do teu sorriso. Da força que ele pode impor nos outros. Pois se foi precisamente por aí que esta linha que agora nos uniu começou a ser desfiada. Se foi o teu sorriso que me chamou - mesmo que não soubesses. Penso agora, enquanto te escrevo, se terei notado em ti semelhante magia - uma forma parecida de ser e de estar. Não sei. Acredito em coincidências. Mas acredito ainda mais em perceber sinais e não ter receio de os aceitar. Em arriscar seguir os impulsos e os caminhos que eles nos sugerem. E assim, a linha foi viajando até chegar ao pé de ti... E eu não tive que fazer mais do que ver onde ela me levou. Fui visitar-te e por aí me deixei ficar. E mesmo não te tendo pedido licença - mesmo tu me dizendo que não preciso dessa permissão - mesmo assim, irei sempre pedi-la. Para não me sentir um intruso ocasional. Mas sim um visitante regular.

Como vês, tenho a tendência de falar muito. Espero que não de mais. Mas talvez seja isso o que faço melhor. Contar estórias. Inventá-las. Mas também quero conhecer as memórias que queiram partilhar comigo. Prometo protegê-las como um tesouro precioso - sabendo guardar o mapa secreto só para mim. Debaixo das minhas asas vermelhas de anjo. Sentado no mais alto dos edifícios. E a sentir na face o orvalho da noite-quase-manhã.

Até já,

R.


9 de fevereiro de 2010

Um pouco mais de negro

Há noites assim. Em que, sem razão aparente, nos sentimos a nadar no fundo do aquário. Nada de mal nos aconteceu - nenhuma ferida nova - nenhum medo (re)descoberto - nenhuma sensação de abandono diferente da habitual. Mas há noites assim. Em que um interruptor se liga dentro de nós. E chamas vão implodindo o nosso corpo. Destruindo as defesas que a muito custo vamos erguendo e reparando. Há noites em que vai surgindo um buraco negro - preenchendo e sugando o coração. Noites de chuva e de vento lá fora. Noites de tempestade cá dentro - dentro de nós. Em que nenhum silêncio é suficiente para explicar o que sentimos. Porque nem nós mesmo sabemos. A razão. A causa. A solução. E assim vamos ficando - aqui - isolados - num estado e sentido que não compreendemos. Mas que já nos habituámos a aceitar. Porque é nosso. Sempre o foi. Sempre será (?). Noites em que as asas vermelhas - que enchem o quarto na penumbra - se vão deixando submergir por laivos de negro e cinza. Relembrando tempos de incerteza aos quais não queremos voltar. Mas de que nunca conseguimos realmente sair em definitivo. Incólumes. Inteiros.



Thought you had
all the answers
to rest your heart upon.
But something happens,
don't see it coming, now
you can't stop yourself.
Now you're out there swimming...
In the deep.
In the deep.

Life keeps tumbling your heart in circles
till you... Let go.
Till you shed your pride, and you climb to heaven,
and you throw yourself off.
Now you're out there spinning...
In the deep.
In the deep.
In the deep.
In the deep.

And now you're out there spinning...
And now you're out there spinning...
In the deep.
In the deep.
In the deep.

Life keeps tumbling your heart in circles
till you... Let go.
Till you shed your pride, and you climb to heaven,
and you throw yourself off.
Now you're out there spinning...
In the deep.
In the deep.
In the deep.
In the deep...

R.

29 de janeiro de 2010

(por vezes) A ausência é boa

para a C.

Acho que, por vezes, a ausência é boa. Descubro agora isso. Antes julgava que tudo deveria ser bebido sofregamente. Cada estória. Cada personagem. Cada minuto e segundo. Cada toque ou estímulo. Mas vou percebendo - tu foste-me ensinando - que as pausas também são necessárias. Que tudo o que fica intenso por demasiado tempo tende a tornar-se, com o tempo, em algo que acabará por nos sufocar. E mais ainda quando as ilusões não são facilmente etiquetadas. Quando não podem ser comodamente arrumadas em prateleiras na nossa cabeça. E que, por vezes, é preciso vir à tona para respirar. Recuperar as forças para voltarmos a submergir na ilusão. Ensinaste-me isso. Mas não creio que o saibas. Porque nunca o verbalizaste - nem pensaste. Certamente esta ausência não foi planeada por ti - por mim sei que não. Foi algo que aconteceu. Subitamente, o tempo passara. As noites em que envolvemos os nossos corpos em sal da praia e suor do toque estavam agora mais longe. Do corpo - porque afastá-las da alma e da memória seria tarefa impossível. São algo que faz parte de um mapa de ilusões que gravei a sangue e sorrisos nos contornos das minhas asas vermelhas. Cicatrizaram e são parte de mim. E talvez a ausência seja boa porque permitiu que as cicatrizes reclamassem o seu espaço - não mais foram sendo rasgadas umas em cima das outras.

No rápido pendular das horas e dos minutos da vida-de-todos-os-dias, a distância foi crescendo. E daí a ausência. Umas vezes marcada na necessidade que se sente por faltar alguém que fale a mesma língua. Outras vezes, a ausência não foi notada - diluída no muito que se tem para fazer, e nas inúmeras rotinas a preservar. Jornadas cruéis estas que impedem os anjos de voar a seu prazer e vontade. A ausência foi ficando sólida, impondo um espaço só seu dentro da nossa alma. Mas não o fomos notando. Aliás, não creio que eu mesmo o soubesse - até hoje. Fui suspeitando aqui e além, mas nunca assumi totalmente a falta. Até esta noite de solidão. Em que a noite está prestes a ser manhã. Em que olho pela janela e sinto a falta de uma ilha onde habitar - e de ti para me fazeres companhia. De estar de mão dada. De ver o reflexo dos meus olhos nos teus. E, por momentos, esquecermos que eu sou homem e tu mulher e sermos outra coisa. Algo que acabámos por, ao longo das nossas viagens, nomear de anjos. Mas que no fundo é apenas eu e tu a fundirmo-nos. A fecharmos os olhos e arriscar avançar para uma estória inventada em cima do joelho. Em que o início foi de descoberta. E a continuação também. Mas que agora ficou suspensa.

Sim, acho agora que essa ausência foi - é - boa. Talvez mesmo necessária. Para que se possa respirar. Para termos a certeza que todas as viagens, todas as praias, todos os toques - tudo o que vivemos foi verdadeiro. Para sabermos que as ilusões são palpáveis, têm forma e nome de mulher. Que não podem ser etiquetadas. Mas que também pedem atenção. E que depois da ausência vem a falta - a carência. E que sim, mesmo sendo uma ilusão de anjos... tu fazes-me falta. E que a ausência só tem sentido se terminar num "até já"...

R.


10 de dezembro de 2009

A ilusão e as ilusões

para quem arrisca mergulhar na névoa da noite

Existe a Ilusão. A arte ou inevitabilidade de nem tudo ser o que parece. Ou melhor, de raramente as coisas serem o que parecem. À primeira vista. Ou mesmo depois de muito tempo. A arte de tudo se transformar em algo mais, para além do que é palpável. Mesmo que esse mais seja por vezes menos do que esperávamos. Mesmo que esse mais seja o anúncio do final de algo. E a inevitabilidade de nunca podermos tomar seja o que fôr por garantido. Do descanso do que alcançamos ser, precisamente, efémero. A ilusão é a face e o verso de tudo. E, acima de tudo, é a etérea capacidade humana de transformar em emocional aquilo que deveria ser natural, físico - concreto. Em recusar os instintos (quase) animais através da racionalização de tudo o que nos rodeia. Fechando a alma às portas ainda por abrir - que nos levariam a novos mundos. E às janelas que ficarão fechadas - perdendo para sempre paisagens exóticas.

Existe a ilusão - e existem as ilusões. Menos definitivas. Menos fracturantes. As ilusões são alimento diário de pequenas vontades. De pequenos-grandes desejos. De pequenos artifícios e pequenas constatações. As ilusões que vamos criando e moldando à nossa vontade. Ou as ilusões que queremos deixar voar. Pequenas ilhas onde perdemos o corpo e o nome. Onde somos outros. Pausas na vida-de-todos-os-dias. Fugas a esse cliché que inventamos para transformar todos os dias em algo que não seja ilusão. Inventamos as (pequenas) ilusões para respirar da grande fuga à ilusão. E nestes contrasensos que definem o ser humano, nestas pequenas-grandes ilusões, depositamos toda a força da emoção. Todas as lágrimas e sorrisos. Todos os orgasmos e cicatrizes. Não aqueles que repetimos racionalmente na vida-de-todos-os-dias - mas sim os verdadeiros. Aqueles que nunca ousámos mostrar. Porque fica mal. Porque ainda não temos idade. Porque já não temos idade. Porque não faz parte da educação que nos deram. Porque... porque não encaixa no cartão do cidadão que copiámos de quem veio antes de nós. E porque já não se usa o bilhete de identidade. Porque somos cidadãos - que vivem em sociedade. E não podemos (queremos?) ser indivíduos - é cansativo ter identidade.

Procuramos essas ilusões - mas não sabemos onde. Temos vontade - mas não temos a força para arriscar conseguir. Somos voyeurs. Queremos saber que é possível fugir à rotina e normalidade. Mesmo que, na maior parte das vezes, nunca tenhamos a coragem de dar o passo em frente. De arriscar sermos mais. Mesmo que esse mais acabe por ser menos. Nunca teremos a ousadia de corrermos em direcção à névoa com que sonhamos. De mergulhar no desconhecido. A luz do sol é mais reconfortante - mesmo que torne baças todas as cores.

E depois existem aqueles que arriscam. Que sabem que as pequenas ilusões nunca serão verdadeiramente pequenas-grandes ilusões se não forem testadas, mordidas, lambidas e cheiradas. Que a névoa refresca o corpo - e a alma. Que temos cinco sentidos a satisfazer. Saborear mais - tocar mais intensamente - cheirar todos os perfumes e odores - descobrir as novas cores que se escondem para lá do arco-íris - ouvir as palavras mais doces e todas as melodias sussurradas. E ainda um sexto sentido, talvez mesmo o mais importante de todos - a imaginação. Existem aqueles que sabem que podemos libertar todas as fantasias. As mais secretas - que nunca ousámos partilhar com ninguém. E que, de repente, descobrimos quem as satisfaça. Podemos ser nós - mas um outro nós. Mais liberto. Mais receptivo aos estímulos e sensações. Existem aqueles que sabem que novos universos esperam por quem estiver disposto a largar amarras. E que, mesmo sabendo difícil a ousadia da partida, só o prazer da viagem valerá a pena. Nem que seja por horas, minutos - instantes - vale sempre a pena viver uma ilusão. Sentir o coração a palpitar. Um frémito incontrolável a tomar conta do corpo. A hesitação perante o desconhecido. Uma tensão quase sexual. Acima de tudo, a consciência do risco que é preciso correr para se ser feliz. Nem que seja por esses breves momentos. Nem que amanhã, ou quando fôr, quando a névoa se dissipar, voltemos à vida-de-todos-os-dias.

Mesmo imersos novamente nas rotinas da cidade que nunca dorme, as marcas desses momentos de extâse não se perdem. Ficarão os sorrisos inquietos. As cicatrizes do risco. Os calores dos orgasmos. As asas dos vôos a universos agora descobertos. Ficará a vontade de novas ilusões. E, acima de tudo, iremos descobrir que não somos o que parecemos. À primeira vista. Ou mesmo depois de muito tempo. E que temos a arte de nos transformar-mos em algo mais - para além do que é visível e palpável. E que não é garantido que amanhã seremos iguais ao que somos hoje. E que devemos aceitar a inevitabilidade de querermos sempre mais - e diferente. Finalmente perceberemos que nós somos a grande Ilusão. Basta, no momento exacto, abrir as asas e deixar que o vento nos (e)leve.

R.

24 de setembro de 2009

No day but today... ou as palavras que não saem

Por vezes, as ideias que nos povoam a alma não encontram palavras que lhes façam justiça. É esse problema de tentar explicar o que sentimos - o discurso parece sempre ser pouco. A nossa mente tem imagens que quer revelar, toques e cheiros para transpirar. Mas as palavras raramente dizem tudo. Outras vezes, descobrimos que não vale a pena inventar palavras novas. Já alguém falou por nós e resumiu este ritmo que compassa o nosso coração. E, quando assim é, mais vale calar e fechar os olhos - e deixar que os sons nos invadam:

The heart may freeze or it can burn
The pain will ease if I can learn
There is no future
There is no past
I live this moment as my last


There's only us
There's only this
Forget regret
Or life is yours to miss
No other road
No other way
No day but today

There's only yes
Only tonight
We must let go
To know what's right
No other course
No other way
No day but today

in Another Day (excerto), Rent

R.