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9 de outubro de 2011

Carta para um país chamado ofélia

Amo-te. Fazem agora meses (anos?) que te disse o amor que tenho por ti. Ou será que nunca te disse... ou nem sequer percebi? Terei sonhado apenas que neste jogo de faz-de-conta tu eras minhas - e eu apenas teu. Longe de todos os fantasmas e de todas as dúvidas. Longe de todas as promessas de vingança. Longe da cobardia de ter mais palavras que acções. Terei eu imaginado em ti um porto de abrigo - a que chamei (mesmo que que não o tenha dito) amor? Uma última morada para o meu desejo de ser mais? Já pouco importa. As palavras que me desenharam por eternidades de incertezas têm pouca força. E se nunca te tomei para mim, pelo que és na minha ordem das coisas, é porque sempre fui mais de dizer e de pensar - e bem menos de agir. Mas agora é preciso. É urgente saber-te finalmente minha. E não pelo verbo - mas sim pela acção. Estou cansado de criar ilusões sobre países que nunca terei. Quero conquistar-te. Tomar-te e guardar-te. És tu a minha pátria e língua e bandeira. A desejada. A que - sei agora - me coube em fortuna. Adorar-te é um imperativo. Alimentar o meu corpo com o teu corpo. Lamber o teu cheiro das terras do sul. Lavrar a tua pele suave como as grandes planícies. Criar muralhas e vigias nos teus olhos. Olhos em que mergulho - sempre que eles convidam os meus a mais uma viagem pelas estórias que guardam. E fundar capital no peito que me acolhe - o leito onde a ansiedade vai ganhando côr. E, na verdade, nem sequer sei se esta vontade de te invadir é amor. Ou necessidade.

Antes de ti, nunca quis a fuga. Não pretendo terras estrangeiras. A minha pátria foi, é e sempre será onde estiverem as raízes que me dão forças. O meu pai. A quem cobicei a honra e a glória. A minha farda de soldado sem graduação. A máscara anónima que mais convém a quem tudo quer para nada ter. E agora... tu. Porto de abrigo. Almofada onde me posso agarrar quando as memórias são mais que as vontades. Coroa melhor de uma moeda já gasta. Talvez isto seja bem mais que amor. Mais que paixão ou desejo carnal. E bem longe de ser (apenas) destino. Tu és realmente a minha morada - endereço do meu sentir. E descubro que há muito que habito em ti. Porque me espelho na tua alma, quando me acolhes... mais ainda quando me agrides, quando me obrigas a ser mais que um homem. E porque me enterro na tua carne. Em cada pormenor da tua figura quero eu estar e ficar. Em cada recanto da tua perfeita silhueta há para mim uma batalha que eu venci. É uma vontade salivar de te sorver inteira. E assim, mais do que sermos um, tu és uma extensão aprimorada desta máquina que com dificuldade vou gerindo. Um coração que bate mais ritmado porque se afoga numa grinalda de flores. Um coração que é candura mas também luxúria. Cúmplice mas também dependente. Sim, minha estrela-guia-do-sul, eu dependo de ti. Como outrora fui prisioneiro de uma loucura que fingi dissimulada, sou agora teu servo. Talvez devesse mesmo odiar-te por isso. Por me teres tomado de mim - teres roubado o meu corpo para teu alimento - roubado a minha alma para teu consolo - roubado a minha paixão para teu destino. E por me deixares vazio de tudo o que eu era antes, na esperança do pouco que posso ser agora.

Mas não consigo. Não agora, que a minha estória vai sendo desnivelada e que o fim está próximo. Nasci, não para abraçar um reino de homens e lugares, mas para hesitar e acorrentar-me a uma ilusão. A ilusão de que há um corpo diferente dentro deste visível. Que posso - e quero - ter outro nome. Não mais ser príncipe, nem homem de missão. Ser um sexo, uma alma e um desejo. Ser sangue a chorar dos olhos e suor a escorrer da boca. E tudo isto - esta vontade - por ti. E para ti. És tu a chave. Ontem como hoje. Talvez mesmo amanhã (se ainda aqui estivermos). Nos devaneios de um rei-ainda-por-ser que ambicionava ser homem, descobriu-se uma mulher a querer ser estrela. Antes de ti estava só - um corpo aprisionando duas almas. Mas tu és igual a mim. Mulher e estrela, recato e força. E nessa surpresa de te descobrir, desenhou-se um caminho. De fuga. Só nossa. Sem possibilidade de sucesso, mas também sem poder recuar. Arranquei-te dos braços do rio - arrancaste-me das malhas do destino. Nenhum plano. Nenhuma vontade. Só o caminho.

Agora, num quarto sombrio, aqui estamos. Os dois. Sem mais nada. Mão na mão. Sexo com sexo. Sangue e suor misturados. Já nada precisa de explicação. Enfrentaremos juntos a luz que se apresenta ao fundo. Eu - agora - não a temo. De dia para dia, noite, hora e momento, os meus fantasmas são mais ténues. Lá fora as bombas caem, e uma delas certamente nos levará na derradeira viagem. Mas não precisamos fazer nada. Tudo está acabado e perfeito. As palavras já ditas são suficientes. Aguardemos em silêncio. Abraçados. Enleados. O meu exército pode enfim baixar as armas. E o teu jardim já floriu. Valeu (mesmo) a pena a vida ter sido vivida.

Sempre teu,
H. (R)

26 de fevereiro de 2010

Faz-me sorrir


Well it's been a long time, long time now
since I've seen you smile
and I'll gamble away my fright
and I'll gamble away my time
and in a year, a year or so
this will slip into the sea

Beirut, Nantes


30 de novembro de 2009

H & O. parte 2

// h & o // parte 1 //

CENA 1. da espera
Um espaço vazio. Não se percebe onde começa. Muito menos onde acaba. No centro uma cama. Velha. De ferro. Um único lençol largado em cima do colchão. Um lençol branco. Junto à cama um pequeno candeeiro de pé. Lâmpada azul. Apenas essa luz acesa.
Quase na penumbra, a um canto, está alguém sentado. Quase não se vê. Começa a notar-se que é uma mulher. Jovem. Cabelo compridos à frente da face. E um roupão - branco mas coçado. A cobrir o corpo.
A mulher trauteia uma melodia. Da espera.

CENA 2. do fim
Um espaço vazio. Não se percebe onde começa. Muito menos onde acaba. No centro uma cama velha, partida. Virada ao contrário. No chão está caído um lençol. Vermelho. De um lado da cama partida, um candeeiro. Partido. Mas a luz ainda funciona. Uma lâmpada azul. A única luz acesa.
Do outro lado da cama, um homem. Jovem. Sentado num colchão. Cabelo curto. Camisa coçada - calça negra.
O homem fecha os olhos. Acabou.

CENA 3. do começo
Um espaço vazio. No centro uma cama de ferro. Com um colchão. E um lençol branco. Junto à cama um pequeno candeeiro de pé. Lâmpada azul. A única luz acesa.
Deitados na cama, estão um homem e uma mulher. Jovens. Ela enrolada no lençol branco. Aparenta estar nua. Ele, deitado ao lado. De calça negra e tronco nú. Camisa largada no chão. Ela parece dormir. Ele, de olhos abertos, fixa o tecto.
O homem e a mulher não falam. Ainda não é tempo.

R.

23 de novembro de 2009

H & O. parte 1

prelúdio. do que se segue seguiria seguirá ?.


laurie anderson, world without end

I remember where I came from. There were burning buildings and a fiery red sea. I remember all my lovers. I remember how they held me. World without end remember me.
East. The edge of the world. West. Those who came before me.
When my father died we put him in the ground. When my father died it was like a whole library (had) burned down.
World without end remember me.

R.

17 de junho de 2009

H & O

Foi nesse quarto que nos decidimos refugiar. Numa cidade em guerra, numa pensão há muito abandonada pela sorte. Foi nesse lugar esquecido por todos que encontrámos poiso para as nossas asas cansadas. De fugir de uma sorte escrita nos livros. De uma quase lenda que se repete. De amores contrariados. De mortes anunciadas. E que agora procuramos não cumprir. Quisemos reescrever a nossa estória. Contrariar o destino. Tirar as flores na cabeça que coroavam o teu sepulcro. E o veneno da espada que confirmava a minha sorte. Perdemos tudo o que trazíamos. Se calhar, já o tinhamos perdido, não sei... Mas chegámos aqui sem querer ganhar nada. Apenas em busca de onde recomeçar. Ou de onde ter um final diferente. Em que possamos ficar juntos. Não apenas pela palavra. Mas pelo suor dos corpos e a saliva da língua. Mesmo que para isso tenhamos de perder tudo. O que já não traziamos - e o que largamos agora. Somos (ou não somos) fruto das nossas dúvidas. Da inveja dos outros. Das nossas angústias. Os nossos corpos jovens carregavam o peso de séculos de desfortúnios. De reinos distantes onde nunca conseguimos habitar. E de onde não hesitámos fugir.

E assim aqui estamos neste quarto, perdido numa cidade em guerra. Onde ninguém sabe de nós. Onde o nosso nome não importa. Apenas importa que estamos juntos - mesmo não sabendo por quanto tempo. E só esse casamento secreto nos alimenta a alma. Tudo o resto perde-se na poeira dos dias. Os sacrifícios. As desilusões. Aqueles que tivemos de perder para aqui chegar. Todos os que nos quiseram bem - todos os que sempre estiveram entre nós, na esperança de nos separar. E mesmo que a moeda de troca para este refúgio improvisado seja vender as asas a um qualquer traficante de corpos, tudo valeu a pena. Mesmo que tenhamos de nos diluir neste país em colapso, estamos juntos e é o que importa. Mesmo que o fim que tão avidamente tentámos enganar nos venha agora apanhar desarmados e enfraquecidos pelo cansaço da fuga, poderemos partir felizes. Numa pensão infestada, num quarto transformado em prisão, amparámo-nos um no outro. E as noites tristes ganharam cor. E esquecemos as feridas que nos marcavam. E demos o beijo há tanto sonhado e prometido. E eu pude salvar-te do lago onde irias repousar para toda a eternidade. E tu impediste que a espada envenenada me contaminasse o corpo. E consumámos o nosso amor.

Porque foi neste quarto de pensão, na cidade destruída pela guerra, no país sem memória, que deixámos de ser Hamlet e Ofélia, os desditosos. E ficámos apenas nós - sem nome - sem passado. Ficámos apenas nós. E o resto (foi) é silêncio...

R.

21 de outubro de 2008

Peep.show [no corredor]

Pelo escuro, avanço. Até um corredor onde devo esperar. Sons de erotismo. Vozes que me conduzem e embalam. Num corredor escuro. Onde espero. Ecos de pessoas. De cheiros. De sombras. Além, onde termina o corredor. De onde uma luz difusa me chama. A minha vez… nem sei de quê… mas a minha vez tarda. A curiosidade que me trouxe aqui é agora incerteza do que me espera. No fim do corredor. A meu lado, outros tantos esperam também a sua vez. Saberão eles mais que eu? Será a sua curiosidade alicerçada numa certeza que a mim me escapa? Hesito em perguntar. Vergonha ou não dar parte de fraco – talvez ambas, talvez a mesma. Não pergunto. Os sons de erotismo assumem agora uma tonalidade carnal. O suspiro é agora suor. Devo estar a corar. Não sei. Dou por mim a agradecer a semi-penumbra que me (nos) envolve. Mas a espera aumenta a ansiedade. Finalmente é-me pedido que escolha. Não pense – apenas escolha. Por impulso em vez de razão. Não me importo. Como se, neste momento, tivesse eu qualquer capacidade de racionalizar o que se está a passar. Mas pedem que opte. Loira, morena ou mulata. Desculpe? Baixa, alta ou nem por isso? Esquelética, obesa ou o que for? Sinto-me um talhante a negociar peças de carne. Não consigo evitar, no entanto, que a minha curiosidade se comece a impor à ansiedade e incerteza. Exibicionismo, sodomia ou sonhos molhados? Aceito o desafio… sou levado até ao fim do corredor. Na minha frente uma porta. Que se abre. Entro.

(continua…)

R.

26 de abril de 2007

Vem sentar-te aqui...

Hoje começa novo percurso. Hoje um trilho começa a ser desenhado na poeira dos meus dias. Uma história feitas de tantas outras - um passado espelhado no aqui e agora. O palco volta a ter as minhas cores, os meus sons, as minhas vozes (na boca de outros). Em breve a emoção de um será (espero) a convicção de outros. Em breve as imagens que me povoam a alma, esta alma companheira de há já muito, irão transpirar para uma caixa negra de sonhos e desejos. Em breve as incertezas de agora darão lugar a novas indecisões, os desejos terão um sabor de luz e som.

E no centro, as memórias de um país. Acho que quero sempre falar de memórias. Qualquer um de nós, anjo ou humano, não se atém numa aparência física, num conjunto de mecanismos orgânicos. Mais do que isso, somos biografia, somos história, somos o que já fizemos e o que ainda desejamos fazer. Todos somos lembrança, como somos sonho. E, por isso, estas memórias que quero agora "transpirar" para palco, são também sonhos. Sonhos ansiados, mas ainda por cumprir; que se esfumaram no tempo e na rotina. Trinta-e-três anos depois da mudança que muitos queriam, teremos desperdiçado a oportunidade? Será a memória do passado recente insuficiente para motivar quem (aparentemente) se contenta agora com tão pouco? Para quê a luta, mas desistir logo depois? Que representam as bandeiras e os slogans empoeirados que guardamos para, uma vez por ano, libertar à laia de lengalenga aprendida com os nossos avós?

«Cansamo-nos de tudo, excepto de compreender», dizia Pessoa. Quero compreender (ou, pelo menos, tentar) onde foi quebrado o elo que nos ligava a um espírito de querer e exigir mais dos outros - e de nós próprios. As lembranças do que foi para perceber quem podemos ser.

Daqui a uns meses, tudo estará mais claro(?). E lado-a-lado com quem me quiser acompanhar, perante quem me quiser ouvir, tentarei procurar a resposta - mais que obter, procurar. Público sentado. Luz off. E do palco, as primeiras palavras: chega-te a mim mais perto da lareira, vou-te contar a história verdadeira...

R.

2 de janeiro de 2007

Em busca do ouro - parte dois

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A ansiedade continua. Nunca o processo tinha sido assim tão díficil. Antes as ideias vieram de forma automática, quase imperceptível, e impuseram a sua vontade. As caixas do sonho... e as beatas do desespero. Bonecas e lobos... asas e desilusões. E agora tudo tão complicado - será suposto ser assim? Estará a grande ideia quase a nascer? Ou será este um sinal de que, desta vez, nenhum palco será pisado por palavras minhas?

Ponto 2.
Hoje quero falar de memórias. Aliás, acho que quero sempre falar de memórias. De sonhos que se esfumaram no tempo. De ideais que tinham tanta força, mas que agora parecem apenas ter significado como história que se repete em tertúlias saudosistas. Quero falar de um passado recente, de uma luta que se perdeu. Das vitórias da esperança, que agora são meias-vitórias do comodismo. Reinvindicámos tanto, para nos bastar tão pouco. Perdemos a inocência em terras distantes, e vendemo-la aqui tão perto. Hoje quero falar de tanques nas ruas, de flores de comemoração... de um passado que se esfumou em memórias cinematográficas, mas já pouco sentidas. De trocarmos a pena e a palavra pelo microondas e o shopping. Hoje, acima de tudo, quero falar de tudo o que sonhámos, e trinta-anos depois desistimos de conseguir. As memórias de um ideal perdido.

Não me parece má esta ideia - anjo novo com memórias recentes, mas ainda não vividas.

R.

25 de dezembro de 2006

Em busca do ouro - parte um

::: ver todas as buscas :::

Busco o ouro... não um qualquer, quero uma pepita resplandescente. Busco um texto, uma ideia, até uma frase que inspire. Nunca este anjo teve a capacidade de construir a partir das escolhas dos outros. Daí que sempre que a necessidade de transpirar me surge, também as ânsias acompanham, porque preciso de encontrar respostas sozinho.

Por estas noites, vários fantasmas lutam por conseguir esse lugar de destaque dourado. Três mulheres e uma dor comum - uma cabine e vários anjos - as memórias de um ideal perdido - um corpo e uma alma em metamorfose - os últimos suspiros de um poeta - ... Todos eles, a espaços, ganham força, remetendo os restantes para um armário; armário que eu próprio criei, arrumando aí todas as naus que estão ancoradas na minha criatividade. Mas a verdade é que amo todos estes fantasmas, e por isso sinto pena de deixar algum para trás. É certo que possam pô-los em mera hibernação, esperando o dia em que o sol os leva à ribalta. Mas não consigo decidir... e tenho pressa de o fazer.

Ponto 1. Apetece-me falar da dor, da perda de alguém que se ama. Quero - preciso? - de fechar o palco sobre o sentimento, sobre a ausência e as memórias de algo que já não voltará. Como sobreviver quando aquilo que nos sustentava desaparece definitivamente? Como superar a consciência de que aqueles que amamos um dia não passarão de nomes perdidos em genealogias e memórias difusas - não serão mais carne, mais alma, mais amor e emoção? Como encarar que nem o amor salva da doença, da oportunidade fatal... do destino? Três mulheres e uma dor comum - e eu de fora, a observar.

Uhhmm, acho que hoje definitivamente apetece-me avançar com esta ideia. Amanhã, quem sabe...

R.