17.6.09

H & O

Foi nesse quarto que nos decidimos refugiar. Numa cidade em guerra, numa pensão há muito abandonada pela sorte. Foi nesse lugar esquecido por todos que encontrámos poiso para as nossas asas cansadas. De fugir de uma sorte escrita nos livros. De uma quase lenda que se repete. De amores contrariados. De mortes anunciadas. E que agora procuramos não cumprir. Quisemos reescrever a nossa estória. Contrariar o destino. Tirar as flores na cabeça que coroavam o teu sepulcro. E o veneno da espada que confirmava a minha sorte. Perdemos tudo o que trazíamos. Se calhar, já o tinhamos perdido, não sei... Mas chegámos aqui sem querer ganhar nada. Apenas em busca de onde recomeçar. Ou de onde ter um final diferente. Em que possamos ficar juntos. Não apenas pela palavra. Mas pelo suor dos corpos e a saliva da língua. Mesmo que para isso tenhamos de perder tudo. O que já não traziamos - e o que largamos agora. Somos (ou não somos) fruto das nossas dúvidas. Da inveja dos outros. Das nossas angústias. Os nossos corpos jovens carregavam o peso de séculos de desfortúnios. De reinos distantes onde nunca conseguimos habitar. E de onde não hesitámos fugir.

E assim aqui estamos neste quarto, perdido numa cidade em guerra. Onde ninguém sabe de nós. Onde o nosso nome não importa. Apenas importa que estamos juntos - mesmo não sabendo por quanto tempo. E só esse casamento secreto nos alimenta a alma. Tudo o resto perde-se na poeira dos dias. Os sacrifícios. As desilusões. Aqueles que tivemos de perder para aqui chegar. Todos os que nos quiseram bem - todos os que sempre estiveram entre nós, na esperança de nos separar. E mesmo que a moeda de troca para este refúgio improvisado seja vender as asas a um qualquer traficante de corpos, tudo valeu a pena. Mesmo que tenhamos de nos diluir neste país em colapso, estamos juntos e é o que importa. Mesmo que o fim que tão avidamente tentámos enganar nos venha agora apanhar desarmados e enfraquecidos pelo cansaço da fuga, poderemos partir felizes. Numa pensão infestada, num quarto transformado em prisão, amparámo-nos um no outro. E as noites tristes ganharam cor. E esquecemos as feridas que nos marcavam. E demos o beijo há tanto sonhado e prometido. E eu pude salvar-te do lago onde irias repousar para toda a eternidade. E tu impediste que a espada envenenada me contaminasse o corpo. E consumámos o nosso amor.

Porque foi neste quarto de pensão, na cidade destruída pela guerra, no país sem memória, que deixámos de ser Hamlet e Ofélia, os desditosos. E ficámos apenas nós - sem nome - sem passado. Ficámos apenas nós. E o resto (foi) é silêncio...

R.

5 comentários:

Nuno Guronsan disse...

Li as tuas palavas dua vezes. Porque gostei de as saborear a dobrar. Porque, enquanto indíviduo que também escreve algumas palavras, me seduz imenso a ideia de duas pessoas unidas e a necessitarem apenas do seu amor para respirar, enquanto à sua volta tudo se desmorona, tudo é varrido para o esquecimento, seja por uma guerra, um desastre natural, ou um mundo que insiste em não viver também ele apenas pela regra do amor e da felicidade.

Gostei imenso, R.
Um forte abraço.

Monikyta disse...

p qd o casting p [h&]o? é transmissivel p a vida real? :P

bj meu

angel_of _dust disse...

monikyta: não há casting para ofélias... apenas se pede (exige) uma profunda vontade de mergulhar no lago - e lá esconder a espada envenenada. que se disponha a (se) perder...

...apenas se quer alguém que se olhe ao espelho e diga: «eu sou (esta) ofélia». se assim for, será transmissível para qualquer ficção... e uma tentação para a vida real. a que muito dificilmente se poderá (ou quererá) resistir ;)

quem estará disposta?

bj meu

angel_of _dust disse...

obrigado... por teres aparecido. está feito - o início.

M disse...

<3