
É assim que me sinto hoje...
R.«Desenha-me uma ovelha», dizia o pequeno príncipe. E, com ele, estava eu. Acreditávamos ambos num mundo diferente, em que a imaginação desenhava a carvão todos os nossos desejos. Tal como aquela criança, também eu pensava (sonhava?) que as grandes questões se resolviam como soluções bem mais simples. Para mim, aquele livro, aquela criança, constituíam-se como manuais de sobrevivência da alma.
Mas, agora, desiludo-me. Não basta que eu acredite - se mais ninguém o fizer, de que me serve sonhar com ovelhas e com as cercas construídas propositadamente para as guardar, se delas todos se rirem, ou pior, se as diminuirem e desprezarem? A verdade bem dura é essa, aprendi hoje: a imaginação não tem a capacidade de se auto-sustentar; precisa de uma semente, mas não passa sem sol e água. E eu, admito, não sou capaz de tudo - julgava que sim, aceito agora que não.
Com essa criança vinda de outro planeta aprendera que a realidade não era preta nem branca, mas sim tingida de uns belo tons de cinzento. Erro meu; a realidade é de todas as cores do arco-íris. Mas o que preciso é de algo palpável, e não de uma mera ilusão óptica. Neste momento, não há crianças, ovelhas, rosas e raposas que me possam auxiliar. Olho bem para a cobra, mas, por mais que queira, não consigo vislumbrar o elefante que tem dentro. Nem sequer tenho já a certeza de que tudo não passa de um amontoado de riscos num papel. Como estas palavras... Apetece-me riscá-las a partir do exacto momento em que as escrevo. Só não o faço porque preciso de um registo preto-branco-cinzento da minha alma neste estado, uma radiografia das minhas penas danificadas. Só não espero um diagnóstico - pelo contrário, temo-o.
r. (pequeno)
Estou farto que todos olhem por mim, e não para mim. Estou farto que me façam perguntas para que eu valide as suas próprias respostas - a sua própria verdade. Não quero ser árbitro, muito menos espectador - eu sou interveniente, sou activo e não passivo. Não quero ser um mero espelho. Não me utilizem para se auto-afirmar, para se promover, para se congratular. Tão-pouco sirvo para eco das vossas frustrações. Sou amigo do meu amigo, amante de quem me quiser amar. Ajudo quem posso, muitas vezes em meu prejuízo. Mas não abusem de mim.
Chega do que eu digo não adiantar para nada. Chega de falar convosco, para depois perceber que mais valia ficar calado, porque só fingiram ouvir. Não pensem que me adormecem definitivamente, com as vossas conversas de ocasião, e saudações passageiras - embora pareça conformado, estou apenas a retemperar forças.
Aceitem quem sou - as minhas opções, as minhas virtudes e defeitos, as minhas vontades e caprichos. Pelo menos tentem! Como eu tento perceber as vossas falhas e imperfeições, tentem também entender as minhas. Acho (aliás, tenho a certeza) que há muito mereci o espaço que peço; não mo tentem agora tirar de mansinho. Se isso acontecer, não se espantem por, um dia destes, eu abrir as minhas asas vermelhas e levantar vôo, em direcção a novas cidades. Estarei a exercer o meu direito de descanso de todos vós. Permitam-me isso, como sempre permitiram e aceitaram com agrado a minha disposição em ampará-los nas minhas frágeis asas.
r. (pequeno)
Há dias assim. Dias em que se julga que tudo vai acabar, dias em que se constata que não é bem assim. Enfim, há dias e dias - e nós cá vamos andando, ao sabor de uma corrente que não conseguimos prever.
R.
Mesmo que o percurso que definimos ou aceitámos como nosso seja o que sonhámos, há alturas em que pensamos se não seria melhor fazer reset, começar de novo: fazer outra coisa, noutro lugar, com outras pessoas. Nem sempre o espectáculo para qual comprámos um bilhete acaba por ser do nosso agrado. Se calhar as personagens pareciam bem mais interessantes no texto. Na maior parte das vezes, o enredo acaba por não corresponder à nossa vontade e gora todas as nossas expectativas num final feliz(?).
Hoje é decididamente um desses dias. Antecipo já uma tempestade que se irá abater sobre a minha cabeça, logo agora que guardei o guarda-chuva e tinha comprado uns novos óculos escuros. As tábuas de um palco que iria tomar como meu desaparecem agora debaixo dos meus pés, atirando-me para um sub-palco empoeirado e abandonado. Bem sei que tenho a capacidade de galgar novamente à superfície (sempre tive), mas achava que os meus dias de "trepador" sem cabo de segurança tinham já cessado... afinal, o que tive foi uma pausa para café numa qualquer tasca de beira-de-estrada. E agora, café com adoçante bebido, volto a calçar as botas de montanha e inspiro profundamente - vem aí trabalho árduo pela frente.
As minhas asas, embora de um vermelho vivo, não têm energia para esta subida. Desta vez, terei de confiar nas pernas que me desabituara a utilizar. O problema de dias solarengos é esse: perdemos a rotina de adivinhar as chuvadas vindouras. Hoje, aqui e agora o anjo cerra fileiras, e aguarda pela derrocada. Realmente, há dias em que não devíamos sair da cama.
R.