17.10.06

(N)a praia

Chegávamos à praia eram já altas horas da noite ou pequenas horas da madrugada. O som das ondas embalava os nossos sonhos de eternidade - imaginávamos recuperar ali a juventude há pouco passada (perdida?). Entre garrafas de bebida e aperitivos roubados dos bares de casa, sorvíamos lembranças de histórias que queriamos repetir, perpetuar.

Na praia. Todos juntos. Ou melhor, todos no mesmo sítio. Afinal, já não temos tanto em comum como antes. Por mais que queira - e, sinceramente, nem sei se quero - estas noites perderam o encanto que outrora tinham. Naquela altura, em que o cabelo era mais farto e a ânsia de viver mais descuidada, imaginara o resto da minha vida assim; feita de noites em branco, de garrafas e de conversas aparentemente decisivas. Agora, admito, tu és a única razão porque insisto em estar aqui. Descobri em ti um sorriso que me fascinou. Sirvo-te um amendoim e copo de Porto e peço-te que me (re)contes a tua vida. «Outra vez?», dizes tu, sorrindo com esse sorriso que me faz esquecer o frio da praia à noite. Sim, outra vez - sempre.

Contas-me como viveste até ao momento em que nos cruzámos pela primeira vez. Respondo-te que eu, pelo contrário, nasci quando me disseste sim ao primeiro amendoim e ao primeiro Porto. Ris-te novamente (não rias mais, peço-te, ou perderei a última réstia de noção que ainda me sobra), como se duvidasses do que afirmo, e com a certeza de quem descobriu um tesouro e agora o tenta guardar apenas para si. «Sabes, é difícil acreditar no destino quando se está numa praia ao frio!». Rio-me eu agora - rimo-nos os dois. Ofereço-te o meu casaco - finalmente uma desculpa para o nosso primeiro contacto físico. Entretanto, não há mais garrafas, nem amendoins, muito menos os cajús que normalmente reclamo nunca ninguém trazer - e com que tu, nesta noite à beira-mar, me decidiste presentear. A noite parece estar perto do fim. Decido arriscar a minha sorte contigo. «Estrela da noite que agora cessa, dá-me um autógrafo, ou então uma dedicatória para um anjo enamorado».

Olho agora, dias depois daquela noite de praia, para o meu braço, onde escreveste a lápis de cor (e que juro nunca mais lavar): para um anjo de areia, volátil como as marés mas certo como as fases da lua. Pena é que não tenhas escrito também o teu número de telefone!

R.

1 comentário:

luis mendes disse...

É fantástico como, por vezes, descobrimos que são os pequenos gestos que marcam e fixam os grandes momentos...

Sozinhos na praia, altas horas da noite, descobrimos que estamos mais unidos do que alguma vez podemos pensar...

Obrigado.