14.3.06

O anjo cresceu


«A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo o que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.»
(Fernando Pessoa)


... Um dia, o anjo cresceu. Um dia, olhou-se ao espelho e já não era mais uma criança. As suas asas eram maiores, as suas penas já não tinham o brilho de outrora - ou então, tinham adquirido um brilho diferente, uma côr mais madura.

E, no entanto, a rua onde jogava à bola, a cidade que aprendera a amar, eram as mesmas. Afinal os seus sonhos de mudança estavam
ainda adiados, por cumprir. É certo que outros sonhos que não adivinhava em criança lhe preenchiam agora o pensamento. Já não ambicionava mudar o Mundo - queria sim mudar o seu mundo. Já não achava que o amor nascia nas árvores, e que nos caía nas mãos (ou nas asas) no pino do Verão - sabia agora que nem sempre a árvore que plantamos dá fruto, e que nem sempre o fruto que colhemos é aquele que desejaríamos comer. Enfim, sabia, neste momento, que nem todas as grandes histórias têm finais apoteóticos, com banda sonora a condizer. A sua (nossa?) vida era feita de pequenos grandes momentos, com uma música de ocasião e efeitos quase imperceptíveis para os restantes viajantes.

O anjo cresceu, e ainda não sabia se isso lhe agradava. Ou melhor, tinha a certeza que lhe era desconfortável; não lhe tinham dado nenhum manual do crescimento, mas todos esperavam que ele se adaptasse na perfeição. Às suas asas, ainda principiantes em vôo raso, pediam que se aventurassem em viagens de longo-curso. E ao anjo só apetecia tê-las cerradas, bem juntas ao calor do corpo.

O anjo olhou pela janela - lá fora, a noite continuava sem se importar de hoje ele ser mais velho. Para a cidade que dorme, o anjo sempre passou despercebido - e não será diferente agora. Apenas o mais atento guarda-nocturno ou camião do lixo, nas suas rondas, tenha notado aquela silhueta na única janela de luz acesa. Todas as noites, aquele vulto solitário vela pelo sono de alguma alma perdida na poeira dos dias. Mas hoje, o anjo abre a janela - deixa entrar o frio de quase-primavera, os ecos da vida em suspenso. Talvez espere que logo hoje algo aconteça...

R.

5 comentários:

Mel disse...

qnd te leio parece q vejo um reflexo meu. é bom encontrar-me fora de mim :)

Feliz Aniversário querido *

polegar disse...

feliz aniversário. e hoje é sempre um dia bom ;)

Nuno Guronsan disse...

"Manual de crescimento"... quantas e quantas vezes ansiei por um momento em que alguém me entregasse esse documento precioso que nos pudesse ensinar a deixar a nossa inocência para trás das costas...

Sleeping Angel® disse...

Adorei o que li... Axo que me revejo um pouco nas tuas palavras! :)

angel_of _dust disse...

a verdade é o crescimento sempre foi o eixo maior das nosas vidas - em crianças, queríamos crescer, sentir tudo o que nos diziam estar "além - à medida que fomos crescendo, verificámos que afinal nada estava garantido, e que crescer era batalhar - acredito que, um dia, crescer significará acumular memórias e biografias...

... não sei se me apetece crescer; mas, também, ninguém me pediu a opinião...