29.1.07

O menino de cabelo verde

Até os anjos solitários e que vivem redor da sua alma translúcida precisam de alguém que lhes seja querido. Até quem anuncia aos quatro ventos um individualismo absoluto suspira bem no fundo ter alguém a quem amar e por quem ser amado. Eu, que poucas vezes assumo amores, hoje quero aqui assumir um - por quem estou ligado quase umbilicalmente (pese a diferença de idades).

Não posso contar como te conheci, porque sempre estiveste lá. Não consigo explicar como te comecei a amar, porque sempre te amei. Uma das minhas primeiras imagens é a teu colo. Nessa altura, terei sido para ti como que um presente - pelo menos, é isso que contas. E, por isso, estiveste sempre a meu lado - até hoje. Cuidando de mim, como se cuida de uma prenda ansiada em noite de Natal.

Segui-te sempre para todo o lado. Ao longo dos anos, muitos dos amigos foram os mesmos. Quase todas as aventuras foram as mesmas. E, assim, para falar de mim, para narrar a minha existência nesta forma humana, nunca poderei deixar de te referir. Torna-se obrigatório dar-te papel de destaque. Tens sido sempre um dos meus principais eixos - muitas vezes, quem me aconselhou, mesmo que não o saibas. Desde o tempo em que, por muitos anos, vivemos uma existência à beira-mar plantada (pelo menos aos fins-de-semana). Quando me levaste, pela primeira vez, a pisar um palco - e, passado tanto tempo, ainda lá estamos. Ou mesmo quando, numa encruzilhada de final de adolescência, me emprestaste um livro que me mostrou que só estaria bem olhando os outros, vendo como deambulam nas suas rotinas diárias. Até as (felizmente) poucas grandes tristezas recentes porque passámos foram vividas e partilhadas em conjunto. Sempre estivémos - sempre estamos - juntos, ligados por um fio invisível mas inquebrável.

E mesmo com o passar do tempo, com o crescer das barbas (bem, com o crescer da minha barba), quando a vivência intensa e a dois seria suposto dar lugar a um convívio regular mas mais espaçado, connosco isso não aconteceu. És grande parte de mim, e gostar de ti é, sem dúvida nenhuma, uma das minhas maiores virtudes. Talvez por isso, dou por mim a achar-me, por vezes, o mais velho de nós. Porque preocupo-me constantemente com o que fazes e sentes; torço por ti a todas as horas. Os teus sucessos vivo-os com bem mais ardor que os meus. Os teus meomentos menos bons são para mim desgraças pessoais.

Mais de três décadas passaram desde que sorrimos, pela primeira vez, um ao outro. Provavelmente, também desde que nos chateámos pela primeira vez. Mas, para mim, serás sempre o menino de cabelo verde e corte à tigela, cons uns olhos do tamanho do mundo e uma bondade infinita como o universo. E agora, que vamos encontrando novas pessoas especiais com quem partilhar a vida e a quem contar as nossas estórias, e neste dia em que mais um inverno passa por ti, não há uma palavra única que possa dizer o que significas para mim. TU és parte do meu sangue e da minha alma. É tudo o que posso dizer... e acho que já é alguma coisa.

Parabéns mano.

R.

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