25.9.07

Andar sem mexer

1ª imagem
Uma rua. Uma rua que vai desde aqui até um horizonte definido pelo alcance da minha vista. Um cruzamento ao fundo. A rua do fundo é bem maior que esta. Bem maior que a "minha" rua. Passa um carro. Na rua do fundo. Nesta rua, na minha rua, ninguém passa. Outro carro na rua do fundo. Duas (três?) pessoas na rua do fundo. Falam essas pessoas. Não entendo o que dizem. Pausa. Nada se move na minha rua. Nem na rua do fundo. Estou só. Pausa. Um cão passa junto ao candeeiro da minha rua. Ahh pois, a minha rua tem um candeeiro. Um candeeiro que ilumina o lado esquerdo da rua. Do lado direito não há. Talvez por isso, o cão passa do lado esquerdo da rua. Pára sob o candeeiro aceso. Olha para mim. Olho para ele. Após poucos instantes de confrontação visual, o cão ladra uma vez. Não lhe respondo. Ladra segunda vez. Não lhe respondo. O cão segue viagem. Desaparece no cruzamento com a rua do fundo. Oiço novo latido, mas já não vejo o cão. Eu fico. Na "minha" rua. Estou mesmo só.

2ª imagem
Estou só. Na rua. Olhos as minhas mãos. Na mão esquerda, a que está iluminada pelo candeeiro, uma tatuagem. Nas costas da mão. Palavras: abrir em caso de solidão. Escritas a cinzento. Por vezes, quase se confundem com a pele, com a sua côr. Olho em volta. Estou só. Nada se mexe nesta rua. Só um candeeiro aceso. Olho longe. Nada se mexe na rua do fundo. Apenas as luzes vagas de uma rua maior que esta. Nenhum som. Nem nesta rua, nem na rua do fundo. Estou realmente só. Abro a mão. Na palma da mão, outra tatuagem. A vermelho-vivo. Uma palavra: theastai. Latim. Ver, observar. Theastai. Olho em volta. Para trás. Ao fundo, outro cruzamento. Outra rua. Mais pequena que esta. Parace. Uma luz ténue vem dessa rua. E um cão. Ladra. Os meus pés. Imóveis. Mexo o pé esquerdo. O pé iluminado pelo candeeiro. O direito não acompanha. Não posso andar. Fico aqui.

3ª imagem
Uma rua. A minha. Duas ruas. As dos outros. Onde passam pessoas. Onde está um cão. Será o mesmo? A minha rua tem casas. As outras também. Olho em volta. Luzes apagadas. Excepto uma. Uma janela. De uma água-furtada. Uma vela acesa. Do lado direito da minha rua. O lado que está na penumbra. Tento olhar. Uma sombra. De gente. De alma. De mulher. De face de mulher. Julgo eu. De peito de mulher. Tenho a certeza. Quero chamar. Não sei como. Não sei quem. Pausa. Assobio. Baixinho. Agora mais alto. Não tenho resposta. A mesma face na sombra da vela. O mesmo peito de mulher. Imóvel. Theastai. Murmuro. Theastai. Olha para mim. Tu que estás na janela, olha para mim. A face volta-se. Não lhe vejo as feições. Mas sei que olha para mim. Desaparece. Fugiste? Som de passos. Olho em volta. Ninguém. Nem o cão. Uma porta abre-se. Luz ténue de um corredor. A mesma figura. Mulher, tenho a certeza. Olha para mim. Estende-me a mão. Theastai. Diz ela. Theastai. Respondo. Pé direito mexe. O meu pé direito. Na direcção da agora luz ténue. Estendo a mão. Uma mão quente. Uma mão de sono. De sonho. De lar. Entra. Diz ela. Não respondo. Mas entro. A luz ténue de corredor é agora luz quente de casa. A porta fecha-se. Atrás de mim.

4ª imagem
Uma rua. Que vai desde outra rua. Mais pequena. Até outra rua. Maior. Passa um carro na rua maior. Na rua pequena apenas um cão. Dorme. Nesta rua, na minha rua, ninguém passa. Só um candeeiro aceso. E uma luz na janela. Uma sombra de face e peito de mulher. Uma sombra de face e peito de homem. Apago a vela. Junto à janela. Só a luz do candeeiro resiste. E os primeiros raios da manhã que nasce.

R.

3 comentários:

Putty Cat disse...

Excelentes "telas".

Adorei.

Nuno Guronsan disse...

Gosto muito destes voos nocturnos do anjo. E gosto porque trazem sempre estas palavras que leio e re-leio e torno a ler e nas quais gosto de me perder e imaginar como também parte das minhas noites.

Abraço, R.

angel_of _dust disse...

putty: obrigado por visitares o meu museu de imagens desfocadas... tenho visitado o teu cantinho - mas sou bem mais de ver e apreciar do que comentar... até já :)

nuno: ainda bem que continuo a captar a tua atenção...vamo-nos cruzando por aí