27.8.18

As tarefas a cumprir

Porquê - pensou o anjo-disfarcçado-de-homem - a dificuldade em ser o que sempre apregoa? Como alimentar a ilusão sem ter uma âncora que lhe indique o porto e abrigo? As dúvidas de quem é mas também tem-de-ser exigiam que inventasse nova forma de guiar as suas asas pela poeira dos dias. 

Decidiu, então, que deveria ter um plano. Uma cábula que dele exigisse um cumprimento de todas as tarefas diárias e regulares. Que - onde o corpo habitava - teria de existir uma emoção a ser cultivada e bem-cuidada. E mesmo sem renegar a sua ilusão, com todas as incertezas e entusiasmos repentinos... mesmo sem negar o que dele fez um anjo (as dúvidas e os mapas desenhados num ápice). Mesmo sem deixar de ser ele, achou que não faria mal tentar nova abordagem. Mais científica... não, científica não - que poderia rapidamente ser artificial. Mais estruturada. Talvez isso.

Pegou numa folha. De rascunho, como tudo o que chama verdadeiramente seu. Uma folha já rabiscada, já povoada de outras ideias e vontades. Com grãos de areia a salpicar e borrões de tinta a pontuar, de quando o sangue das palavras é demasiado para que qualquer frase seja suficiente... e, por isso, apenas marcas e sujidades ficam na folha. Apenas inícios - muitos deles que nunca verão a sua concretização. Pegou numa folha já viajada e desenhou uma tabela. Imperfeita no seu traçado, de dimensões inexactas. Nunca foi bom desenhador - nunca foi bom em tanta coisa. Inventou títulos para enunciar a proposta. E assim surgiram as Tarefas a cumprir (para uma alma limpa). No topo de tudo, assim ficou escrito. Primeiro desvio à decisão de ser mais prático que errático: achou necessário um preâmbulo. Como se tentasse, desde logo, explicar o porquê desta vontade de ser mais... "enquadrado". E pouco importava se esta tabela de decisões e sua organização nunca fosse vista por mais alguém. Que estas palavras de introdução servissem a ele próprio como lembrança do porquê de encetar esta demanda. Para quando tremesse no seu ímpeto e duvidasse do propósito. Começou então por escrever (com sublinhados e tudo):
"Como se cuida do corpo, assim se deve cuidar da alma. Existem em número suficiente entendidos, especialistas ou generalistas, defensores dos benefícios de um tratamento atento das várias partes do corpo. E quase todos alertam que qualquer desses tratamentos apenas será eficaz se feito de forma rotinada. Hábitos de higiene, portanto.
Se a alma advém do corpo - pois é nele que reside - e será tão única como o corpo que lhe serve de lar, também esta deverá ser alvo de atenção. Tanto como a dentição ou o cabelo. Deverá ser alimentada em qualidade e quantidade como o sistema digestivo. E, não diferentemente do coração-músculo, será importante vigiar de perto o coração-emoção.
Tomar atenção ao corpo na procura de sinais de fadiga ou doença. Dar atenção à alma na busca de fadiga e desistência."
Durante largo tempo contemplou estas palavras. Se foram minutos, horas ou uma noite inteira não se recorda. Mas foi tempo suficiente para se convencer que era este um passo que necessitava dar - aprender a cuidar da sua alma. E mais importante: fazê-lo de forma regular. Olhou para a tabela já (imperfeitamente) desenhada e dividiu-a em diversas células. No topo de cada coluna escreveu números sucessivos: 1, 2, 3, 4, 5, ... Não sabia ainda se o cuidado exigia uma aplicação em todos os dias... ou se estava dependente de tempos que ainda não percebera. Mas soube que o próximo passo seria inventar (lembrar?) partes da sua alma em que pudesse repartir o trabalho. Decidiu que mais facilmente passaria da vontade ao acto se pudesse ligar as necessidades da sua alma ao corpo onde ela habita há muito. E assim fez - em cada linha enunciou o que achava dever ser cuidado. E para cada parte, anotou a lápis explicações para quando os propósitos não fossem tão claros.

Escreveu na primeira linha (com itálicos e tudo): Pensar numa coisa que se quer - cérebro. Mais do que algo que existe para ser completado, pensar em algo que se deseja. Concretizável ou não, que se deseja. Que se quer, mesmo sabendo das dificuldades (impossibilidades?). Sonhar sem amarras. Sem perguntas - muito menos exigindo respostas. Deixar que a alma queira - esperando que o corpo alcance. Ou não... mas continuar a querer. Ele queria muito querer.

Na segunda linha (rasurada e tudo): Saborear cada pormenor - boca, nariz e olhos. Guardar o paladar de cada circunstância. Aproveitar cada sorriso, cada gosto e cada aroma de tudo o que nos rodeia. Especialmente das pessoas que nos rodeiam. Deixar-nos seduzir pelo cheiro de alguém. Pelo gosto que adivinhamos - mesmo que não o provemos. E, se a oportunidade surgir, não deixar de cheirar de perto, de tragar o sabor dos lábios. Sim, era imperativo nunca sentir fome de ilusões.

Na terceira linha: Guardar MEMÓRIAS e desenhar momentos -  olhos. Sempre fora ávido de memórias - das vividas na pele, das inventadas pela imaginação. E, pensou, era importante que os olhos-da-alma tivessem um espaço central. Um espaço que conquistaram por direito nestes anos todos em que coleccionara estórias, feito viagens e fotografado com o sonho as mais bonitas pessoas e mais exóticos lugares. Mas estava destreinado. E, por isso, destacou uma palavra com letras bem maiores. Se tudo falhasse, restariam as memórias... e mais aventuras para contar.

Quarta linha: Agarrar as oportunidades -  pés e mãos. Talvez seja a tarefa mais difícil. Não poucas vezes sentira que não se esforçara o suficiente por prender a si tudo o que a vida lhe tinha colocado à frente. Também é verdade que a vida, nos seus caminhos muitas vezes exageradamente curvos, insistia em surpreendê-lo. E nem todos os momentos, as pessoas e as jornadas dependiam apenas de si. Particularmente as pessoas - era um anjo de paixões, mas um homem de noções. E, algumas vezes, tinha a noção que não bastavam braços e pernas próprias para agarrar quem o cativava. Por vezes, esses braços, esses corpos - mesmo as almas - passavam por perto mas sem se deter. Mas, mesmo assim,  havia que agarrar qualquer oportunidade de... o que fosse.

Quinta linha: Guardar e lembrar -  o interior. Para quê ver, saborear, tocar ou querer... se não soubermos guardar esses momentos e sensações cá-dentro? Por isso, tinha de regularmente relembrar algo, sentir novamente. Recordar-se de tudo o que o seu corpo alberga, de todas as marcas que nele são lugares de um mapa incompleto. Voltar a querer algo, talvez de forma diferente. Recuperar o sabor ou cheiro de um lugar ou de uma pessoa (que te-nos faz sentir especiais). Rever os pontos cardeais de cada viagem, recuperando as cores de cada caminho e de cada país-interior onde habitámos. E agarrar cá-dentro esta sensação de que tudo faz sentido, mesmo quedado não o fez. Que muito se percorreu, mas que tudo está por ainda por alcançar. E falta tanto para o fim.

Sexta (e última) linha: SENTIR, SENTIR SEMPRE -  coração. Aqui escreveu em letras bem capitais o que para ele sempre fora o mais importante: sentir. Esforçar-se, cada vez mais, para não cair na rotina e no cómodo que tanto incomoda. Cada pormenor, cada sensação - tomá-las para si. Apaixonar-se continuamente pelas ruas onde habita. Encher o peito de cores por cada sorriso que não se consegue deixar de amar. Ser surpreendido por novas pessoas e novas sensações - e nunca pensar sobre a certeza. Ser o que sempre quis (com itálico e tudo): um anjo sensível sob a capa de um homem.

Olhou para esta tabela. Respirou fundo. Depois de tanto pensar e organizar, chegou à conclusão que apenas tinha feito o mais fácil. Faltava Teria de começar a preencher - havia que começar a tratar desta alma. Respirou novamente. Fechou os olhos. Sorriu. E soube que um novo capitulo começara.

R.

23.8.18

Hoje ouve o bater do coração.

Cala-te. Falas muito - dizes adorar os silêncios, mas as palavras sempre encontram em ti terreno fértil para florescerem. Pára e respira - não peças urgência à pressa e corrida ao corpo. Deixa-te ficar. Cala-te, já disse. Fecha os olhos. Tudo lá fora importa pouco. Aqui - neste instante imobilizado na noite. Aqui os verbos nada avançam e os adjectivos pouco explicam. Mesmo tu, com os teus dias cheios - tu com horas de chegada e partida, deves e haveres - tu estás a mais. A não ser que aceites não-estar... A não ser que regresses ao sentir-ser.

Hoje é tempo de parar. De escutar sem logo retorquires qualquer teoria. Aquelas que, sem esforço, sempre surgem dando ciência ao que é sensitivo. Ao que se afirma como inexplicável. É difícil, sim... incontrolável, também. E o nó na garganta e a palpitação no peito relembram-te a cada passo. Hoje ouve o bater do coração. Apenas isso - e já é tanto. Não peças explicações ao que ele apenas constata. Que bate e não tem previsão de compasso. Tenta sentir a sua melodia. A voz que te compele a fechar os olhos. A encheres a mente de viagens possíveis e horizontes desejáveis.

Hoje acredita que é possível. Que existe uma estrada no meio do silêncio dos montes. Que algures está um sorriso que te acolhe e te devolve o que nem sabias ter perdido. Nada digas. Nada penses. Tudo aceita. É infância e os jogos de faz-de-conta dizem-te que não há tempo nem idade. Que podes saltar à corda sem medo de cair. Que podes correr descalço e sentir que o mundo se molda nos pés. Hoje sente o que não dizes. Que podes ser surpreendido. E, hoje.. podes fingir que isso basta.

Quando a estrada quase deserta te oferece os sinais... Deixa que (pelo menos) hoje possas ouvir o bater do coração.

R.

2.1.17

Um sussurro na terceira letra.

Às vezes, basta um momento - num local - numa altura. Sem plano de acontecer. Não se esperar, não procurar. Estar incauto - e ser surpreendido. Se calhar, é assim que deve acontecer. As melhores cosias não pedem para chegar. Sem anúncio, entram e rapidamente se instalam em nós - dentro do nosso corpo - alimentando a nossa ilusão. De repente, algo parece ser-estar diferente. Por ouvir um breve sussurro a chamar-nos... ou assim nos parece. E que corta o silêncio ensurdecedor da casa vazia. Por vislumbrarmos uma luz... ainda difusa. Que, no meio de uma qualquer noite escura de inverno, rasga sombras nas paredes nuas - no nosso corpo cansado. Por sentirmos um ligeiro arrepio na pele... que faz tremer. Como uma impressão de vida que (re)nasce. Todo o corpo e ilusão sentem que esta noite não é igual a outras tantas que passaram. Porque a fadiga de tudo-o-que-precisamos-fazer é esquecida. O dia que foi longo, já a pedir-nos o reparador descanso, afinal não impera. Entramos no domínio da nocturna emoção. A cidade-que-nunca-dorme permanece lá fora, sempre igual. A vida do mundo não se desvia do seu curso. Hoje como ontem. E assim continuará. Mas aqui, onde estamos, numa casa vazia invadida pela noite reparadora, algo ficou subitamente diferente. Estranho. Um ligeiro formigueiro no peito ganha força. Cresce a olhos vistos - e a alma sentida. A chave-de-nós roda, abrindo o baú das sensações. E (re)acende-se o universo-cá-de-dentro. Assim, (aparentemente) do nada. Reflectido no espelho, um brilho nos olhos verdes - sim, afinal por debaixo da secura, existe ainda brilho a poder despontar. Como se algo - ou alguém - alimentasse uma vela... e finalmente voltássemos a ver. Não apenas olhar... ver.

Paramos. Às vezes, é preciso fazer uma pausa para respirar. Fazer contas de cabeça e obrigar o coração a abrandar o ritmo. Pelo menos tentar... por mais difícil que seja pôr freio à vontade que o instinto nos indica. Paramos e pensamos. Em tantas noites iguais, as janelas que nos separam do mundo foram fechadas - buscando o merecido repouso de lutas e caminhos que nem sempre levaram a portos seguros. Mas, às vezes, basta um momento. Uma noite em que a janela fica entreaberta, deixando apenas passar restos de neblina e frio da noite de inverno. E se sorte, destino, profecia - ou coincidência... - existem, numa noite-entreaberta-ao-mundo algo pode mudar. A noite pode ser interrompida por uma passagem. Por um vulto que decide cruzar a nossa "janela". Visita inesperada. Desconhecida. Sem sabermos nada, a voz ainda pouca força tem. As palavras de ocasião saem. Perguntas e respostas em sucessão. Apalpamos um terreno que, aparentemente, não conhecemos, mas que vamos sentindo como familiar. Parece estranho. A "janela" estar aberta - a noite trazer um vulto com o frio de inverno - não temermos a sua chegada - deixarmos entrar. E o estranho passa a estranhamente fácil - certo - bom. Muito bom. As novas palavras nascem com facilidade. As frases são ditas quase sem pensar. Mas sempre a sentir. melhor, a sentir cada vez mais. As imagens - escritas ou gravadas em fotografias fugazes - vão desenhando pontes que nos levam à outra margem do rio. E surgem também os silêncios. Não daqueles que adivinham a ausência. Estes são silêncios que trazem tranquilidade - que nos dizem que não existem palavras suficientes para dizer da calma, da serenidade... da vontade de saborear os momentos. Cada um - demoradamente - sem pressas. Na ânsia de querer mais; mas na certeza do tempo ser o certo para ir descobrindo o caminho rumo a uma nova paisagem. Um destino que ainda não clarificamos, mas que nos vai chamando com o seu canto irresistível. E, então, arriscamos. Avançamos. Ousamos... pensar menos, querer (bem) mais. Passo a passo. Etapa a etapa. Ainda sem sentir qualquer cansaço na viagem. Ainda à procura de como chegar lá... ao outro lado do rio. Sabendo que não há melhor estrada que aquela que desenhamos com o coração aberto e vontade cheia. Faróis de luz e sombras que levarão o corpo para onde ele é esperado.

Mesmo sabendo que tudo será descoberto a seu tempo, e que não são precisas premissas antes de partir - mesmo assim - há que nomear. Voltar às palavras, nem que seja para poder gravar na alma qual o nosso destino. Dar ao desejo de viajar uma meta palpável. Que pode até ser uma letra - tal como sempre quisemos reduzir o nosso próprio nome. Terceira letra do alfabeto. Quase redonda, como é a rotina de todos-os-dias - mas ainda aberta, como a vontade de abrir as asas e não ficarmos presos ao pendular passar das horas-sempre-iguais. Uma letra que diz, à partida, pouco - mas que (já) significa tanto.Que lida de fora, é apenas uma singular letra - perdida por não ser junta a outras, por não ser princípio nem meio nem fim de palavra. Mas que é bem mais que isso - quando vista de dentro. Porque diz de uma vontade, diz de um sorriso que fica rasgado no rosto e que, teimosamente, vai fazendo morada em nós. Na face e na caixa-em-forma-de-coração que nos habita o peito. Uma letra - uma imagem - um encontro... um início. Um princípio de vontade. Um meio de saber que, sim, é verdade que a janela estava aberta e por lá entrou novamente a ilusão. Um fim que não se conhece - mas que, agora, se deseja (tanto) saber. Não para fechar a porta, a janela... fecharmo-nos. Mas sim para encerrar todas as dúvidas da estranheza.  A incerteza - começar a aventura. Mas sim para colar palavras bonitas a essa letra. Imagens bonitas ao vulto que ousou entrar e pernoitar na casa vazia. Respirares e suspiros muito bonitos à vontade de tocar o que se lê.

Existiu existe um sussurro. Que traz a terceira letra. A letra que dá o mote para a palavra necessária: Começa.


R.

4.11.16

Afirmação-contrato [sobre as alturas que chegam #2]

Sobre o tempo que se demora. A decidir. A avançar. A perceber. A aceitar... que falo demais - ajo de menos. Que sei muito - pouco concretizo. E a contagem do tempo que passou ganha agora um peso que custa a carregar.

É estranho ser alguém que só encontra paralelo numa imagem criada em palco. Como um Hamlet que sabe que o seu pai foi morto por mão criminosa, que sabe quem culpar por tão vil acto, que afirma ser dono do seu destino, que abraça a vingança como seu ofício... mas que tarda em fazer-acontecer. Eu sou assim. Tardo. Espero. Adio. Sou um poço de palavras, uma fracção de dicionário, uma enciclopédia de palavras bonitas. Mas, quando a matemática da acção e do sucesso é calculada, sou bem pouco - uma fracção. Uma promessa de ilusão - uma prova de que a vontade tem de dar a mão à coragem. E ambas têm de ser acção.

É esse o fim de capítulo que leio nesta noite que antecipa o inverno. Nesta varanda onde vejo a cidade-que-nunca-dorme, uma cidade que achei já conhecer. As varandas mudaram, as asas (ainda) não. Varanda(a) onde me habituei a olhar de fora e aproveitar as gotas de orvalho que pousavam nas asas cansadas. Onde já ousei voar - mas onde me sinto, agora, parado. Como se as palavras estivessem a perder sentido. Numa neblina que vai surgindo no horizonte e, pouco a pouco, engolindo tudo, as palavras são apenas palavras.
Retido. Sentado e olhos bem abertos. Palavras antigas lidas e retidas. Cadernos já coçados na mão. Antes, nem sei bem quando, fui contentando a minha ansiedade de ser mais que seja-o-que-for com palavras bonitas - líricas mesmo - e viagens fugazes a territórios desconhecidos. Que sabiam bem, mas ficavam pouco. Mas, na estranheza de um anjo que fala muito [terão sido palavras a mais? teremos confundido tudo?] e que diz tantas palavras que sabem-bem-e-embalam-tanto, acho que terei investido tão pouco em deixar semente. Em plantar algo que pudesse crescer e ser flor-resistente-às-intempéries. Soube aproveitar bem as fugas e as aventuras. Gravei no meu corpo as marcas, os sons, os sabores... os ligeiros tremores de lábios. Mas algo impediu sempre que a flor fosse floresta. Que soubesse agarrar com o corpo-hesitante o que o corajoso-coração me apontava. Houve um tempo em que perdi forças a tentar perceber que me tinha afastado do que verdadeiramente queria. E nenhuma resposta me contentou.

Isso vai ter de terminar. A incerteza (afinal) não sabe assim tão bem. Os anjos estão ancorados, inevitavelmente, ao risco e à ilusão... mas só sabem abrir as suas asas em plenitude quando sentem que há um caminho a percorrer. Com outras asas que saibam voar numa cúmplice dança. E logo eu que tenho dois pés esquerdos. Demorei tanto-demasiado tempo a percebê-lo. E, nos tempos que correm, perdi a certeza de não ser tarde demais.

Há que agir. Arriscar as perguntas. Cumprir o caminho que me indica o farol-alma que tanto me tem colocado rasteiras. Mas que sabe sempre o que quero. Mesmo (principalmente) nas alturas em que duvido. Desculpa não ter prestado a devida atenção - mesmo quando tinha a incerteza que a tua voz era bem mais clarividente que a minha. Perdi tanto tempo - e perdi... caminhos e memórias do que podia ter sido. Nada posso quanto a isso. Mas posso, neste momento, ser melhor. Agarrar na poeira dos dias que passaram e mergulhar. Nas areias das praias. Nas montanhas dos silêncios. Nas palavras que verdadeiramente nunca se disseram. As linhas poderão estar já quebradas - as viagens que comecei (e interrompi) poderão ter já terminado. Mas não se re-aprende a voar sem enfrentar que as estórias terão(?) continuado sem nós. Não se é mais verdadeiro-real-eu sem saber que muito se pode perder... Mas há tanto ainda para ganhar.

A caminho do risco,
R.

Sobre as alturas que chegam #1



[Chega uma altura em que precisamos de calçar os sapatos-de-voar - correr as paisagens - saber que as areias* nos chamam]

* as que se entranham nos pés - ou as que nos acomodam a alma.