A pOeIrA dOs DiAs
6.1.12
Retomar(?)
9.10.11
Carta para um país chamado ofélia
8.9.11
Ainda não
em algum lugar as horas passam
mas não aqui.
em algum momento seguimos em frente
mas - agora - não aqui.
e sabemos que vai passar
mas - hoje - ainda não.
e não é por corrermos sem parar
que deixaremos de ser apanhados
eventualmente
hoje ou noutro dia.
e não é por pintarmos um sorriso na ferida
que ela deixa de doer.
amanhã o sol nasce
como a lua se seguirá.
as mesmas casas e ruas
mas menos pessoas.
dias parecidos aos de antes
mas não os mesmos.
a idade vai obrigando
a fazer contas de diminuir.
nos nomes - mas não nas caras.
nas palavras - mas não nas memórias.
no toque - mas não no amor.
aqui estamos juntos.
(mas) hoje menos um.
R.
3.6.11
Querer e (não?) poder
Querer e não poder. Porque sim... ou melhor, porque não. Afastar o chamamento dos sentidos. Fechar os olhos às imagens que se desenham e que me puxam para beira do que será um precipício. Não ouvir os sussurros que apelam à minha vontade. Refrear as mãos que procuram descobrir novos caminhos, novos lugares onde morar e desbravar terreno. Saber que a saliva se quedará sozinha, sem sentir o gosto ácido - ou doce - do fruto apetecido. E tentar ignorar o cheiro bom de um feitiço que nos cerca, deixando-nos (quase) indefesos aos seus encantos. Assim é querer e poder - mas não dever. Saber que, uma vez a porta aberta, um novo universo se abre. Saber que cruzar essa porta é esquecer o nome e, nem que seja por momentos, esquecer tudo lá-fora. Ficar apenas cá-dentro. E isso bastar - ser mais do que suficiente - ser tudo o que queremos.
E a dúvida cresce. Querer é poder, por imperativo da vontade e da ilusão. Querer ser mais... ser mais que um punhado de laços e regras. Sermos nós. Dos pés à cabeça, passando por cada milímetro do corpo. Sentir cada textura de nós chamar por algo mais. Querermos que os olhos se refresquem nas sombras que desenhamos na quase penumbra. E deixar que essas sombras tragam até nós os chamamentos da sereia. Descobrir com as mãos e corpo as formas suadas de um planeta por desbravar. Comer, morder, lamber ansiosamente os frutos, como se nunca antes tivéssemos sentido sabor igual (e teremos?). E o aroma que sempre nos cativou, senti-lo mais próximo - deixar que nos invada e se funda com o nosso próprio cheiro. Mas também abrir as cancelas da alma. Deixar o (e)terno viajante ganhar sobre o "perfeito" morador. Guardar numa gaveta as incertezas e ponderações. Avançar sem receios ou moralismos. Saber - acreditar - que somos mais do que apregoamos aos quatro ventos. Aceitar que não somos - nunca o fomos sequer - perfeitos. E que a ilusão também tem lugar em nós. Essa ilusão difícil de explicar e ainda mais de seguir. Mas que nos preenche - nos puxa. Como se de uma linha invisível se tratasse, seguimos a estrada amarela em direcção a Oz. A um feitiço que ninguém viu, mas em que acreditamos piamente. Porque sabemos, bem cá no fundo, que foi por ele que sempre chamámos em sonhos. E que ele não substitui a realidade palpável de todos os dias... mas sabe igualmente bem. E, assim, queremos os dois.
Querer o que não se diz - pela razão que não se aceita. Mas, num instante, tudo muda. Apenas bastando, para isso, um "vem". E a razão termina onde a ilusão se impõe... E, mesmo sem saber se estamos prontos, fechamos os olhos. E vamos.
R.
14.1.11
Os espinhos na carne
A capacidade de esforço nem sempre é recompensada pela efectividade de uma recompensa. As respostas dadas a perguntas que fazemos a nós próprios deparam-se, não poucas vezes, com becos em que não existe saída - ou essa mesma saída está dissimulada por detritos e cartazes já gastos de espectáculos que nunca quisemos ver. Desenhamos - ou melhor, EU desenho… já que não sei falar para além de mim - estratégias que julgamos perfeitas, ou no mínimo satisfatórias. Pintamos cores em mapas fotocopiados de livros onde tudo corre sempre bem. Mas as cores são inventadas. As cores são despejadas sem sabermos a sua correcta ordem e quantidade. Um mapa de cores vibrantes tem um brilho que não é igual para todos. Ou tem legendas e escalas em medidas que mais ninguém aprendeu.
Muitas vezes, descobrimos que a nossa escola é apenas partilhada por poucos. E que esses poucos não vivem no mesmo sítio, não falam da mesma forma. A nossa escola está em vias de extinção. Somos poucos - e não somos bons - custa, mas é verdade. Ou sabemos de menos, ou temos de menos, ou queremos de menos. A nossa oratória já está gasta. Já o desconfiava… sei-o agora com toda a certeza. Aqueles que estavam do nosso lado estão cansados. Outros achavam mais fácil. Que bastaria dizer que se quer - ser assim, estar assim… pensar e viver assim. Resta saber de quem é a fraqueza - se nossa, se deles. Da minha parte, admito-a - infelizmente. As forças de inventar e reinventar já foram mais. Mais do que me frustarem os resultados, é o processo que me está a custar muito. O tempo que demora. As horas terem espinhos. E cada passo - cada metro - faz feridas nos pés. E não existem chagas que justifiquem a via sacra. E não pode haver contentamento quando quando nos espetam facas nas costas. Embrulhadas em sorrisos.
Hoje estou assim. Desiludido. Mais do que com o caminho, é com a dureza e por irem escasseando os apoios. Não faltam aqueles que fariam melhor. Assim o afirmam peremptoriamente. Muitos sabem muito - mas conseguem o mesmo pouco que eu… ou ainda menos. Só que eu admito que, por vezes, a via que todos julgam ser a mais fácil é a que me interessa. E aliás, ela não é mais fácil - é (apenas?) a necessária neste preciso momento. Nesta etapa em que me encontro. E "esses" - os de fácil julgamento e gigante presunção - ainda não tiveram de tirar espinhos da carne. Não quiseram risco de fechar os olhos e voar. Apenas falam dele à boca cheia - anuncia a ilusão como se fala do éden. Mas o paraíso deles é apenas teórico. E, precisamente por isso, ainda não perceberam que esse éden não existe. Fora dos livros que carregam para todo o lado. Com a capa virada para fora - para que todos os outros vejam e suspirem de admiração. Eu já não suspiro por irrealidades. Amo e quero - com todo o meu corpo - prazeres reais. Daqueles que não têm invólucros bonitos, mas que alimentam e sabem a vida.
Acima de tudo, já não quero conversa fiada. Quero ir a jogo com quem sabe chorar enquanto luta com todas as forças. Que beija sofregamente - porque não sabe fazê-lo de outra forma. Os outros, quero-os de lado. Deixem-se estar na bancada, enunciando teorias sobre o mundo das utopias. Estou em campo, pronto para a batalha. Os vossos assobios não chegam aqui. Não sou anjo de capela. Nem loiro, nem assexuado - muito menos santo. Tenho o cabelo da cor da noite - olhos verdes como os campos do horizonte - asas vermelhas de sangue e raiva e amor e ilusão e necessidades e energia. Estou aqui. Onde tudo se decide. E não estou pronto para desistir.
R.