Photobucket

9.2.10

Um pouco mais de negro

Há noites assim. Em que, sem razão aparente, nos sentimos a nadar no fundo do aquário. Nada de mal nos aconteceu - nenhuma ferida nova - nenhum medo (re)descoberto - nenhuma sensação de abandono diferente da habitual. Mas há noites assim. Em que um interruptor se liga dentro de nós. E chamas vão implodindo o nosso corpo. Destruindo as defesas que a muito custo vamos erguendo e reparando. Há noites em que vai surgindo um buraco negro - preenchendo e sugando o coração. Noites de chuva e de vento lá fora. Noites de tempestade cá dentro - dentro de nós. Em que nenhum silêncio é suficiente para explicar o que sentimos. Porque nem nós mesmo sabemos. A razão. A causa. A solução. E assim vamos ficando - aqui - isolados - num estado e sentido que não compreendemos. Mas que já nos habituámos a aceitar. Porque é nosso. Sempre o foi. Sempre será (?). Noites em que as asas vermelhas - que enchem o quarto na penumbra - se vão deixando submergir por laivos de negro e cinza. Relembrando tempos de incerteza aos quais não queremos voltar. Mas de que nunca conseguimos realmente sair em definitivo. Incólumes. Inteiros.



Thought you had
all the answers
to rest your heart upon.
But something happens,
don't see it coming, now
you can't stop yourself.
Now you're out there swimming...
In the deep.
In the deep.

Life keeps tumbling your heart in circles
till you... Let go.
Till you shed your pride, and you climb to heaven,
and you throw yourself off.
Now you're out there spinning...
In the deep.
In the deep.
In the deep.
In the deep.

And now you're out there spinning...
And now you're out there spinning...
In the deep.
In the deep.
In the deep.

Life keeps tumbling your heart in circles
till you... Let go.
Till you shed your pride, and you climb to heaven,
and you throw yourself off.
Now you're out there spinning...
In the deep.
In the deep.
In the deep.
In the deep...

R.

31.1.10

Posso entrar?

Perguntas-me porque apareci - porque decidi prender a minha atenção em ti e no que fazes. Porque nos prendemos a alguém? Nos interessamos por uma pessoa? Não há tempo adequado quando se tenta dizer tudo - mesmo quando não temos respostas. Quando não sabemos o que nos prendeu e fez voltar onde fomos ou queremos ser felizes. Talvez tenha sido um sorriso (eu gosto muito de sorrisos) ou um olhar envergonhado. E não sabendo explicar, podia inventar uma estória... ou simplesmente dizer-te que te visitei uma vez, e que depois, uma e outra vez, voltei a ti porque sim. Mas prefiro tentar da forma que melhor sei. Desta forma. Usando palavras desenhadas à luz da noite que se vai transformando em madrugada. E, com isto, dizer "olá". Esperando que esta seja a desculpa perfeita para me veres aqui - ao pé de ti.

Perdoa a intromissão. Não ter batido antes à porta. E pedido licença para te visitar. Não vou dizer que foi sem querer. Porque na realidade admito e defendo estar a olhar para ti - às escondidas (?). Mas não quero que penses que sou obsessivo. Que te ando a perseguir. Porque não ando - juro. Mas a verdade é que também não te consigo explicar convincentemente porque tenho gostado de te visitar. Aí onde "moras". Onde vais permitindo que, mesmo sem saberes, eu vá inventando uma personagem que me faz companhia. E que, por gostar, vou voltando de tempos a tempos. Para te criar como parceira de viagem. Para saber como estás. Que tens feito. E mesmo que a imagem que tenha criado de ti possa não condizer em nada com quem és, isso não importa. Porque mais do que forçar a minha presença nas tuas rotinas, quero que povoes as minhas aventuras. Aquelas que vou criando - umas vezes por diversão, muitas outras por necessidade de me sentir vivo. Prometo-te que, em troca da tua inconsciente participação, reservarei para ti sempre o papel principal. Nessas aventuras assumirás sempre a liderança de todas as decisões. E terás sempre a palavra certa no momento certo. Tudo isto te ofereço. Como paga por me permitires - espero - ser teu fiel companheiro de aventuras. Para além de escriba dos teus-nossos feitos. E com a pena e a palavra vou estendendo a minha linha até ti. Para que a possas colorir. Da cor e textura que te apetecer. E para que possas, se quiseres, inventar novas estórias e inúmeras aventuras onde me levarás pela mão. Se quiseres.

Por isso, se calhar não deveria pedir-te desculpa. Por me ter intrometido no teu espaço. Por ter saltado a vedação e escondido nos arbustos. Teremos nós - terás tu - direito em questionar quem se apropria do que enviamos para o ar? Continuaremos donos e senhores das imagens, dos sons e das letras que vamos deixando escapar entre fotografias e textos? Haverá direito em julgar quem apanha do chão e das nuvens os despojos da nossa passagem? Não estarão elas a perpetuar a nossa presença?... Assim sendo, vê em mim não uma estranha figura, mas sim um anjo de asas abertas. Sentado no cimo de um prédio na cidade que nunca dorme, fui descobrindo nas sombrias ruelas uma pérola a brilhar. Reparando no seu brilho... seria uma pena não vê-lo perdurar. E daí o eterno retorno a ti - ao teu lugar. Daí a invasão tranquila e a agora rendição incondicional. Porque tu, sem o saberes, a isso me obrigaste. Porque decidiste aparecer e chamar-me. E eu respondi ao teu apelo. Não o poderia - quereria - evitar. Nem os anjos são de ferro.

R.


29.1.10

(por vezes) A ausência é boa

para a C.

Acho que, por vezes, a ausência é boa. Descubro agora isso. Antes julgava que tudo deveria ser bebido sofregamente. Cada estória. Cada personagem. Cada minuto e segundo. Cada toque ou estímulo. Mas vou percebendo - tu foste-me ensinando - que as pausas também são necessárias. Que tudo o que fica intenso por demasiado tempo tende a tornar-se, com o tempo, em algo que acabará por nos sufocar. E mais ainda quando as ilusões não são facilmente etiquetadas. Quando não podem ser comodamente arrumadas em prateleiras na nossa cabeça. E que, por vezes, é preciso vir à tona para respirar. Recuperar as forças para voltarmos a submergir na ilusão. Ensinaste-me isso. Mas não creio que o saibas. Porque nunca o verbalizaste - nem pensaste. Certamente esta ausência não foi planeada por ti - por mim sei que não. Foi algo que aconteceu. Subitamente, o tempo passara. As noites em que envolvemos os nossos corpos em sal da praia e suor do toque estavam agora mais longe. Do corpo - porque afastá-las da alma e da memória seria tarefa impossível. São algo que faz parte de um mapa de ilusões que gravei a sangue e sorrisos nos contornos das minhas asas vermelhas. Cicatrizaram e são parte de mim. E talvez a ausência seja boa porque permitiu que as cicatrizes reclamassem o seu espaço - não mais foram sendo rasgadas umas em cima das outras.

No rápido pendular das horas e dos minutos da vida-de-todos-os-dias, a distância foi crescendo. E daí a ausência. Umas vezes marcada na necessidade que se sente por faltar alguém que fale a mesma língua. Outras vezes, a ausência não foi notada - diluída no muito que se tem para fazer, e nas inúmeras rotinas a preservar. Jornadas cruéis estas que impedem os anjos de voar a seu prazer e vontade. A ausência foi ficando sólida, impondo um espaço só seu dentro da nossa alma. Mas não o fomos notando. Aliás, não creio que eu mesmo o soubesse - até hoje. Fui suspeitando aqui e além, mas nunca assumi totalmente a falta. Até esta noite de solidão. Em que a noite está prestes a ser manhã. Em que olho pela janela e sinto a falta de uma ilha onde habitar - e de ti para me fazeres companhia. De estar de mão dada. De ver o reflexo dos meus olhos nos teus. E, por momentos, esquecermos que eu sou homem e tu mulher e sermos outra coisa. Algo que acabámos por, ao longo das nossas viagens, nomear de anjos. Mas que no fundo é apenas eu e tu a fundirmo-nos. A fecharmos os olhos e arriscar avançar para uma estória inventada em cima do joelho. Em que o início foi de descoberta. E a continuação também. Mas que agora ficou suspensa.

Sim, acho agora que essa ausência foi - é - boa. Talvez mesmo necessária. Para que se possa respirar. Para termos a certeza que todas as viagens, todas as praias, todos os toques - tudo o que vivemos foi verdadeiro. Para sabermos que as ilusões são palpáveis, têm forma e nome de mulher. Que não podem ser etiquetadas. Mas que também pedem atenção. E que depois da ausência vem a falta - a carência. E que sim, mesmo sendo uma ilusão de anjos... tu fazes-me falta. E que a ausência só tem sentido se terminar num "até já"...

R.


10.12.09

A ilusão e as ilusões

para quem arrisca mergulhar na névoa da noite

Existe a Ilusão. A arte ou inevitabilidade de nem tudo ser o que parece. Ou melhor, de raramente as coisas serem o que parecem. À primeira vista. Ou mesmo depois de muito tempo. A arte de tudo se transformar em algo mais, para além do que é palpável. Mesmo que esse mais seja por vezes menos do que esperávamos. Mesmo que esse mais seja o anúncio do final de algo. E a inevitabilidade de nunca podermos tomar seja o que fôr por garantido. Do descanso do que alcançamos ser, precisamente, efémero. A ilusão é a face e o verso de tudo. E, acima de tudo, é a etérea capacidade humana de transformar em emocional aquilo que deveria ser natural, físico - concreto. Em recusar os instintos (quase) animais através da racionalização de tudo o que nos rodeia. Fechando a alma às portas ainda por abrir - que nos levariam a novos mundos. E às janelas que ficarão fechadas - perdendo para sempre paisagens exóticas.

Existe a ilusão - e existem as ilusões. Menos definitivas. Menos fracturantes. As ilusões são alimento diário de pequenas vontades. De pequenos-grandes desejos. De pequenos artifícios e pequenas constatações. As ilusões que vamos criando e moldando à nossa vontade. Ou as ilusões que queremos deixar voar. Pequenas ilhas onde perdemos o corpo e o nome. Onde somos outros. Pausas na vida-de-todos-os-dias. Fugas a esse cliché que inventamos para transformar todos os dias em algo que não seja ilusão. Inventamos as (pequenas) ilusões para respirar da grande fuga à ilusão. E nestes contrasensos que definem o ser humano, nestas pequenas-grandes ilusões, depositamos toda a força da emoção. Todas as lágrimas e sorrisos. Todos os orgasmos e cicatrizes. Não aqueles que repetimos racionalmente na vida-de-todos-os-dias - mas sim os verdadeiros. Aqueles que nunca ousámos mostrar. Porque fica mal. Porque ainda não temos idade. Porque já não temos idade. Porque não faz parte da educação que nos deram. Porque... porque não encaixa no cartão do cidadão que copiámos de quem veio antes de nós. E porque já não se usa o bilhete de identidade. Porque somos cidadãos - que vivem em sociedade. E não podemos (queremos?) ser indivíduos - é cansativo ter identidade.

Procuramos essas ilusões - mas não sabemos onde. Temos vontade - mas não temos a força para arriscar conseguir. Somos voyeurs. Queremos saber que é possível fugir à rotina e normalidade. Mesmo que, na maior parte das vezes, nunca tenhamos a coragem de dar o passo em frente. De arriscar sermos mais. Mesmo que esse mais acabe por ser menos. Nunca teremos a ousadia de corrermos em direcção à névoa com que sonhamos. De mergulhar no desconhecido. A luz do sol é mais reconfortante - mesmo que torne baças todas as cores.

E depois existem aqueles que arriscam. Que sabem que as pequenas ilusões nunca serão verdadeiramente pequenas-grandes ilusões se não forem testadas, mordidas, lambidas e cheiradas. Que a névoa refresca o corpo - e a alma. Que temos cinco sentidos a satisfazer. Saborear mais - tocar mais intensamente - cheirar todos os perfumes e odores - descobrir as novas cores que se escondem para lá do arco-íris - ouvir as palavras mais doces e todas as melodias sussurradas. E ainda um sexto sentido, talvez mesmo o mais importante de todos - a imaginação. Existem aqueles que sabem que podemos libertar todas as fantasias. As mais secretas - que nunca ousámos partilhar com ninguém. E que, de repente, descobrimos quem as satisfaça. Podemos ser nós - mas um outro nós. Mais liberto. Mais receptivo aos estímulos e sensações. Existem aqueles que sabem que novos universos esperam por quem estiver disposto a largar amarras. E que, mesmo sabendo difícil a ousadia da partida, só o prazer da viagem valerá a pena. Nem que seja por horas, minutos - instantes - vale sempre a pena viver uma ilusão. Sentir o coração a palpitar. Um frémito incontrolável a tomar conta do corpo. A hesitação perante o desconhecido. Uma tensão quase sexual. Acima de tudo, a consciência do risco que é preciso correr para se ser feliz. Nem que seja por esses breves momentos. Nem que amanhã, ou quando fôr, quando a névoa se dissipar, voltemos à vida-de-todos-os-dias.

Mesmo imersos novamente nas rotinas da cidade que nunca dorme, as marcas desses momentos de extâse não se perdem. Ficarão os sorrisos inquietos. As cicatrizes do risco. Os calores dos orgasmos. As asas dos vôos a universos agora descobertos. Ficará a vontade de novas ilusões. E, acima de tudo, iremos descobrir que não somos o que parecemos. À primeira vista. Ou mesmo depois de muito tempo. E que temos a arte de nos transformar-mos em algo mais - para além do que é visível e palpável. E que não é garantido que amanhã seremos iguais ao que somos hoje. E que devemos aceitar a inevitabilidade de querermos sempre mais - e diferente. Finalmente perceberemos que nós somos a grande Ilusão. Basta, no momento exacto, abrir as asas e deixar que o vento nos (e)leve.

R.

30.11.09

H & O. parte 2

// h & o // parte 1 //

CENA 1. da espera
Um espaço vazio. Não se percebe onde começa. Muito menos onde acaba. No centro uma cama. Velha. De ferro. Um único lençol largado em cima do colchão. Um lençol branco. Junto à cama um pequeno candeeiro de pé. Lâmpada azul. Apenas essa luz acesa.
Quase na penumbra, a um canto, está alguém sentado. Quase não se vê. Começa a notar-se que é uma mulher. Jovem. Cabelo compridos à frente da face. E um roupão - branco mas coçado. A cobrir o corpo.
A mulher trauteia uma melodia. Da espera.

CENA 2. do fim
Um espaço vazio. Não se percebe onde começa. Muito menos onde acaba. No centro uma cama velha, partida. Virada ao contrário. No chão está caído um lençol. Vermelho. De um lado da cama partida, um candeeiro. Partido. Mas a luz ainda funciona. Uma lâmpada azul. A única luz acesa.
Do outro lado da cama, um homem. Jovem. Sentado num colchão. Cabelo curto. Camisa coçada - calça negra.
O homem fecha os olhos. Acabou.

CENA 3. do começo
Um espaço vazio. No centro uma cama de ferro. Com um colchão. E um lençol branco. Junto à cama um pequeno candeeiro de pé. Lâmpada azul. A única luz acesa.
Deitados na cama, estão um homem e uma mulher. Jovens. Ela enrolada no lençol branco. Aparenta estar nua. Ele, deitado ao lado. De calça negra e tronco nú. Camisa largada no chão. Ela parece dormir. Ele, de olhos abertos, fixa o tecto.
O homem e a mulher não falam. Ainda não é tempo.

R.

a morada do anjo > angelofdust[at]gmail.com

poeiras anteriores

coleccionadores de poeiras

Creative Commons License
os textos aqui presentes estão abrangidos por uma licença Creative Commons Attribution-Noncommercial-Share Alike 2.5 License.